“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Brasil Colônia/Complemento

A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA A D. MANUEL

Pero Vaz de Caminha era o escrivão-mor da frota portuguesa que partiu de Lisboa a 9 de março de 1500 para consolidar a rota marítima das Índias. As mais de vinte páginas escritas pelo escrivão se transformaram no registro mais completo dos primeiros contatos entre portugueses e índios e das primeiras impressões sobre as terras "descobertas"

“Senhor
... Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel, e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram... Afeição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos... não fazem o menor caso de encobrir ou mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, do comprimento de uma mão-travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudo nas pontas como furador... Os cabelos são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta... E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de aves amarelas... Porém e com tudo isto andam muito bem curados e muito limpos... Isto me faz presumir que não têm casas nem moradas a que se acolham, e o ar, a que se criam, os faz tais. Nem nós ainda até agora vimos casa alguma ou maneira delas...

... Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente de frutos, que a terra e as árvores de si lançam, e com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos...

... Esta terra, senhor, será tamanha que haverá nela bem vinte ou 25 léguas por costa... Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber se há ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro nem o vimos. Porém, a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de entre Doiro e Minho, porque nesse tempo de agora os achávamos como os de lá. As águas são muitas, infinitas. Em tal maneira e graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem. Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar.

E que aí não houvesse mais que ter esta pousada para esta navegação de Calicute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.

E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi.
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500”.

PERO VAZ DE CAMINHA
(CORTESÃO, Jaime. A Carta de Pero Vaz de Caminha. ln: GASMAN, Lydinéa. Documentos Históricos Brasileiros. Rio de Janeiro, Fenarne, 1976.)

O PAU-BRASIL NA HISTÓRIA COLONIAL

No livro Viagem à Terra do Brasil, Jean de Léry documentou as relações de trabalho entre os europeus e os índios e a incompreensão do nativo em relação à necessidade de acumulação de bens por parte dos colonizadores.

“Das árvores... que a terra do Brasil produz .
...quero antes de descrever os costumes dos nossos selvagens... falar das plantas, frutos e raízes que se encontram nesse país,
Devo começar pela descrição de uma das árvores mais notáveis e apregoadas entre nós por causa da tinta que dela se extrai: o pau-brasil que deu nome a essa região. Essa árvore, a que os selvagens chamam de arabutan...
Quanto ao modo de carregar os navios com esta mercadoria (pau-brasil), direi que tanto por causa de sua dureza, e consequente dificuldade em derrubá-la, como por não existirem cavalos, asnos nem outros animais de tiro para transportá-la é ela arrastada por meio de muitos homens; e se os estrangeiros que por aí viajam não fossem ajudados pelos selvagens, não poderiam sequer, em um ano, carregar um navio de tamanho médio. Os selvagens em troca de algumas roupas, camisas de linho, chapéus, facas, machados, cunhas de ferro e demais ferramentas trazidas por franceses e outros europeus, cortam, serram, racham, atoram e desbastam o pau-brasil transportando-o nos ombros nus às vezes duas ou três léguas de distância, por montes, sítios escabrosos até a costa junto aos navios ancorados, onde os marinheiros o recebem.

Em verdade só cortam o pau-brasil depois que os franceses e portugueses começaram a frequentar o país; anteriormente, como me foi dito por um ancião, derrubavam as árvores deitando-lhes fogo. Na Europa imaginam muitos que os toros redondos encontrados nos armazéns são da grossura natural das árvores; já observei que estas são muito grossas, por isso os selvagens desbastam os troncos e arredondam a fim de facilitar o transporte e o manejo dos navios...

... Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan (pau-brasil). Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, mairs e peros (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não queimávamos, como ele supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com seus cordões de algodão e suas plumas.

Retrucou o velho imediatamente: e por ventura precisais de muito?
-Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados:
- Ah!, retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre?
- Sim, disse eu, morre como os outros.

Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam?
- Para seus filhos, se os têm, respondi: na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos.
- Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros mairs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem. Não será a terra que vos nutrir suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados”.
(LERY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil.)

O SENTIDO DA COLONIZAÇÃO

“Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo ‘sentido’.
Este se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo. (... )

No seu conjunto, e vista do plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos. (...)

Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem como as atividades do pais.

 Virá o branco europeu para especular, realizar um negócio; inverterá seus cabedais e recrutará a mão-de-obra que precisa: indígenas ou negros importados. Com tais elementos, articulados numa organização puramente produtora, industrial, se constituirá a colônia brasileira. Este inicio, cujo caráter se manterá dominante através dos três séculos que vão até o momento em que ora abordamos a história brasileira, se gravará profunda e totalmente nas feições e na vida do país. Haverá resultantes secundárias que tendem para algo de mais elevado; mas elas ainda mal se fazem notar. O "sentido" da evolução brasileira que é o que estamos aqui indagando, ainda se afirma por aquele caráter inicial da colonização. Tê-lo em vista é compreender o essencial deste quadro que se apresenta em princípios do século passado (...)”.
(PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 16 ed., São Paulo, Brasiliense, 1979.)

FILME:
Desmundo mostra condição feminina no Brasil colonial

Filme de época (por volta de 1570) e falado em português arcaico do século 16, é todo legendado no idioma moderno.
Baseado no livro da romancista Ana Miranda e dirigido pelo paulista Alain Fresnot, a narrativa traça um retrato do Brasil colonial visto sob o ponto de vista feminino: no caso, o de Oribela (Simone Spoladore).
Jovem portuguesa, Oribela veio para o Brasil junto com um grupo de órfãs trazidas para cá pelo projeto da monarquia lusitana de oferecer esposas brancas aos colonos, que há tempos se miscigenavam com as índias.
Na época, essa era uma situação completamente desfavorável às mulheres, mesmo às europeias. Afinal, naqueles dias elas valiam menos do que as mulas e tinham menos direito a exercer a própria vontade. Como gado, seus dentes e dotes físicos eram examinados e elas eram arrematadas como num leilão.
Muito devota, mas disposta a tentar algum tipo de escolha, Oribela rejeita com uma cusparada o primeiro e bruto pretendente (Cacá Rosset). Com Francisco (Osmar Prado), ela já é mais conivente, ainda mais que ele se comporta, em princípio, com mais civilidade.
Instalada na remota propriedade do marido com uma sogra estranha (Berta Zemel), uma cunhada deficiente e uma clara insinuação de incesto, Oribela tenta a fuga com a ajuda de um comerciante judeu, Ximeno (Caco Ciocler).
O filme é um retrato vivo de como devem ter sido aqueles primeiros tempos da colônia e os choques entre suas diversas populações.
Direção: Alain Fresnot
Duração: 99 min
http://ul.to/8c6o6i6eAno: 2003
Áudio: Português+Legenda

DOCUMENTÁRIO: 
"Índios no Brasil": construindo imagens e desconstruindo estereótipos

A série de vídeos Índios no Brasil é dividida em dez programas, de aproximadamente 20 minutos, nos quais a questão indígena é abordada visando enriquecer o currículo escolar, romper estereótipos e inverter papéis, já que não apenas os índios são objeto de investigação, mas a própria sociedade não indígena ocupa o lugar do "outro".
A intenção foi flagrar o descompasso entre a imagem de um índio genérico cristalizada no imaginário dos brasileiros e a realidade de vários grupos indígenas, que estão cada vez mais articulados politicamente e mobilizados para garantir o exercício de sua identidade cultural.
Apresentada pelo líder indígena Ailton Krenak, Índios no Brasil faz um painel dos costumes, valores e perspectivas de índios de nove povos dispersos no território nacional, escolhidos entre mais de 200 etnias: os Ashaninka e Kaxinawá do Acre, os Baniwa do Rio Negro no Amazonas, os Krahô de Tocantins, os Maxacali de Minas Gerais, os Pankararu de Pernambuco, os Yanomami de Roraima, os Kaiowá do Mato Grosso do Sul e os Kaingang do sul do país. Os entrevistados são professores ou líderes de organizações indígenas e, por isso, bastante convincentes e articulados. Em suas falas transparece a recusa em encaixar-se nesses modelos construídos ao longo de 500 anos de invasões, exploração e, não raro, etnocídio.

Realização: TV Escola-2000
Produção: Vídeo Nas Aldeias
Direção: Vincent Carelli
Fotografia: Altair Paixão e Vincent Carelli
Roteiros: Henri Gervaiseau, Tutu Nunes e Vincent Carelli
Apresentação e entrevistas: Ailton Krenak
Música de abertura: Antônio Nóbrega e Wilson Freire


Clique no nome do episódio para assistir on-line

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13 comentários:

  1. nao consigo baixar os filmes nesse servidor...
    =/

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  2. Por favor, tente novamente. Às vezes o link está indisponível temporariamente no servidor.

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  3. O link está disponível, só que sempre que clico para baixar o computador diz que 'nao foi possível verificar o servidor desse programa' e nao faz o download de jeito nenhum...alguem também nao conseguiu baixar ou foi só eu? com aquele outro servidor 'fileserve' eu consegui...que raiva que deu o megapload ser fechado, por ele dava mais certo...Abraço.

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  4. Por favor,tente novamente. Postei o filme em outro servidor (WUPLOAD). Obrigado qualquer problema entre em contato.

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  5. Agora sim, deu certo nesse outro servidor. Obrigada Tonhao

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  6. Obrigada, Tonhão por partilhar conhecimento. \
    Grande e fraterno abraço.
    Regina R. Evilasio

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    1. Dileta amiga Regina, muito obrigado pelo apoio e carinho.

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  7. Professor,
    no trecho: "Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar. "

    Fica claro a "preocupaçao" de Pero Vaz aos indios. Mas ele quis dizer no sentido de que os indios sao "atrasados" e inocentes, ou no sentido de que nao deveriam maltrata-los? deixa-los em paz?

    Obrigada.

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    1. Laura, boa noite. Como nada de grande valor comercial foi encontrado de imediato (entenda metais preciosos), o escrivão julga que a única coisa a ser feita era "salvar essa gente". Repare como é depreciativa a expressão "esta gente", pois como "essa gente" não tinha nenhuma religião (na visão do europeu, ou seja, não eram cristãos/católicos)caberia aos europeus salva-los, catequiza-los. Esta é uma clara visão eurocêntrica do mundo. Desta forma, como qualquer europeu desde período (com raras exceções) consideravam que apenas eles eram civilizados, os demais eram atrasados, não civilizados. Assim deveriam "salvar esta gente".

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    2. Foi isso o que pensei Tonhão.Mal sabiam eles que ignorantes por pensar assim eram eles proprios nao é?!
      Obrigada,
      Boa noite e até quinta.

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    3. Ah ja ia me esquecendo...
      Belo Blog professor, parabens!!

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    4. Laura, você tem toda razão.
      Muito obrigado pela atenção e carinho.

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