“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Expansão Marítima/Complemento

Quem era essa gente que mudaria o mundo?
     As tripulações apresentavam, desde o século XV, um leque compósito de marinheiros de línguas e origens diferentes. Entre os portugueses, a presença de escravos negros era comum. Quando estenderam suas campanhas ao norte da África, procuravam quem falasse árabe ou recrutavam intérpretes capazes de comunicar-se com os sarracenos. No imaginário da época, tais marinheiros - livres ou cativos - eram tidos por "criminosos da pior espécie", cujas penas, por enforcamento, podiam ser comutadas pelo serviço marítimo. Segundo o testemunho de um soldado, quase todos os tripulantes dos navios eram "adúlteros, malsins, alcoviteiros, ladrões, homens que acutilavam e matavam por dinheiro, e outros de semelhante raça". Muitas prostitutas subiam a bordo, enganadas pela marujada, embarcadas por magistrados portugueses ou trazidas por soldados. Quando uma dessas passageiras clandestinas era encontrada, deixavam-na no próximo porto ou a isolavam do restante da tripulação. Os pobres embarcados dependiam da generosidade de um capelão para arranjar-lhes roupas com as quais pudessem se cobrir. Outros procuravam um capitão rico, capaz de provê-los de "vestido e camisas bastante" para os meses que ficavam longe da terra natal. Esses marinheiros, geralmente, portavam calções compridos e volumosos a fim de não atrapalhar os movimentos exigidos pelas manobras de navegação. Tais calções eram amarrados à cintura por cordões e completavam-se com o schaube, um sobretudo em forma de batina, sem mangas.

A dramática situação dos navegadores
     Apesar de pequenas - cerca de 20 metros de comprimento -, ágeis, capazes de avançar em ziguezague contra o vento e dotadas de artilharia pesada, as caravelas eram tidas como os melhores veleiros a navegar em alto-mar. Mas, mesmo se a embarcação fosse boa, o cotidiano das viagens ultramarinas não era nada fácil. A precariedade da higiene a bordo começava pelo espaço restrito que era utilizado pelos passageiros: algo em torno de 50 centímetros por pessoa. Em uma nau de três cobertas, duas eram utilizadas para a carga da Coroa, dos mercadores e dos próprios passageiros. A terceira era ocupada em sua maior parte pelo armazenamento de água, vinho, madeira e outros artefatos de utilidade. Nos "castelos" das embarcações encontravam-se as câmaras dos oficiais - capitão, mestre, piloto, feitor, escrivão - e dos marinheiros, armazenando-se no mesmo local pólvora, biscoitos, velas, panos etc. O banho a bordo era impossível, pois, além de não existir esse hábito de higiene, a água potável era destinada ao consumo e ao cozimento de alimentos. Nos corpos, ou na comida, proliferavam toda a sorte de parasitas como piolhos, pulgas e percevejos. Confinados em cubículos, os passageiros satisfaziam suas necessidades fisiológicas, vomitavam ou escarravam próximos aos que consumiam as refeições. Por isso mesmo, costumava-se embarcar alguns litros de "água de flor", destinada a disfarçar os odores nauseabundos, além de ervas aromáticas, também queimadas para o mesmo fim ..Em meio ao constante mau cheiro e associado ao balanço natural, o "enjoamento" era constante. Para piorar ainda mais a situação, a má higiene a bordo costumava contaminar os alimentos e a água embarcada. Os "fluxos de ventre", para os quais não se tinha cura, ceifavam, rapidamente, indivíduos já desidratados e desnutridos.
     A alimentação durante essas longas viagens sempre foi um problema para a Coroa portuguesa. A falta habitual de víveres em Portugal impedia que os navios fossem abastecidos com a quantidade suficiente de alimentos. O Armazém Real, encarregado desse fornecimento, com certa frequência simplesmente deixava de fazê-lo. A fome crônica e a debilitação física colaboravam para a morte de uma parcela importante dos marinheiros. Em Memórias de um Soldado na Índia, Francisco Rodrigues Silveira relatava queixoso que eram raros os “soldados que escapavam das corrupções das gengivas (o temido escorbuto, doença causada pela falta de vitamina C), febres, fluxos do ventre e outra cópia de enfermidades..."
     Além de escassos, os alimentos embarcados encontravam-se estragados antes mesmo de começar a viagem. Armazenados em porões úmidos, os comestíveis, ao longo da jornada, apodreciam ainda mais rapidamente. O "rol dos mantimentos" costumava incluir biscoitos, carne salgada, peixe seco (principalmente bacalhau salgado), banha, lentilhas, arroz, favas, cebolas, alho, sal, azeite, vinagre, açúcar, mel, passas, trigo, vinho e água. Nem todos os presentes tinham acesso aos víveres, controlados rigorosamente por um despenseiro ou pelo próprio capitão. Oficiais mais graduados ficavam com os produtos que estivessem em melhores condições, muitas vezes vendendo-os numa espécie de mercado negro a outros viajantes famintos. Grumetes e marinheiros pobres eram obrigados a consumir "biscoito todo podre de baratas, e com bolor mui fedorento e fétido", entre outros alimentos em adiantado estado de decomposição. Mel e passas eram oferecidos aos doentes da tripulação nobre. Febres altas e delírios, que costumavam atingir muitos dos tripulantes, decorriam da ingestão de carnes excessivamente salgadas e podres regada a vinho avinagrado. Quando ocorriam calmarias, sob o calor tórrido dos trópicos, os marinheiros famintos ingeriam de tudo: sola de sapatos, couro dos baús, papéis, biscoitos repletos de larvas de insetos, ratos, animais mortos e até mesmo carne humana. Matavam a sede com a própria urina. Muitos, contudo, preferiam suicidar-se a morrer de sede.
DEL PRIORE, Mary e VENÂNCIO, Renato. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

As imagens que o europeu possuía sobre outros mundos
     O autor do relato abaixo, Francisco Antônio Pigafetta, é de origem italiana. Participou da expedição comandada por Fernão de Magalhães, que saiu da Espanha em 1519, só retomando em 1522. O comandante não retomou, pois morreu nas Filipinas em 1521.

Arucheto - Pigmeus - Nosso piloto contou-nos que por estas passagens há uma ilha, chamada Arucheto, cujos habitantes, homens e mulheres, não ultrapassam a altura de nossos cotovelos e possuem orelhas mais longas que todo o corpo, de modo que, quando se deitam, uma serve de colchão e outra de cobertor. Andam nus e com os cabelos raspados, têm a voz rouca, correm agilmente, habitam subterrâneos e se alimentam de peixes e de uma classe de fruto branco e redondo como confeitos(. . .).

(...) Ilha habitada por mulheres - Também nos contaram que a Ilha Ocolora, abaixo de Java, é habitada exclusivamente por mulheres. Estas são fecundadas pelo vento e quando nasce o bebê, se é macho matam imediatamente, se é fêmea, a criam. E matam todo o homem que se atrever visitar sua ilha ( ... ).

(...) Costumes - Estes povos não conhecem nenhuma lei e não seguem outra norma que não seja sua própria vontade. Não têm rei nem chefe. Não adoram nada e andam completamente nus. Alguns usam longa barba que, às vezes, misturam-se aos longos cabelos negros puxados para afrente e caindo até a cintura. Usam também chapéus de palma. São robustos e rosados. Sua tez é de uma cor acentuada, porém, nos disseram que nascem brancos e que se tornam morenos com a idade. Colorem com arte os dentes, pintando-os de vermelho e preto, o que para eles é sinônima de beleza.

As mulheres - As mulheres são de boa estatura e menos morenas que os homens. Os cabelos são muito negros e lisos e tão compridos que se arrastam sobre o chão. Andam nuas como os homens, embora algumas cubram suas partes sexuais com uma tira estreita, branca como o papel, que é feita de uma substância extraída do talo de palmeira. Trabalham apenas em suas casas e fazem esteiras e cestos com folhas de palmeiras, além de outros utensílios semelhantes para uso doméstico. Algumas untam os cabelos e todo o corpo com óleo de coco.
PIGAFETTA, Antonio. A Primeira Viagem ao Redor do Mundo. O diário da expedição de Fernão de
Magalhães. Porto Alegre, L&PM, 1985.

1492 - A Conquista Do Paraíso
A viagem de Cristóvão Colombo, que acreditava ser possível chegar ao Oriente navegando para o Ocidente, é o cenário épico desse filme de Ridley Scott. A odisseia de Colombo está presente no filme através do cotidiano desgastante, dos motins da tripulação e de toda incerteza que cercava uma expedição daquela época quanto ao rumo e ao prosseguimento da viagem. Sem apoio financeiro de Portugal, a maior potência da época, Colombo dirigiu-se à Espanha e associou-se aos irmãos Pinzon, recebendo ainda uma ajuda dos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Com uma nau (Santa Maria) e duas caravelas (Pinta e Nina), o navegador de origem controversa (genovês ou catalão) partiu do porto de Palos em 3 de agosto de 1492 fazendo escala nas ilhas Canárias para reparo de uma das embarcações. Em 12 de outubro do mesmo ano avistou a ilha de Guanani (atual São Salvador). Sem duvidar que estava no Oriente, realizou ainda mais quatro viagens, tentando encontrar os mercados indianos. O filme focaliza também espírito vanguardista de Colombo, suas negociações com a coroa espanhola e a tentativa de estabelecer colônias na América, retratando até a velhice, aquele que é considerado um dos navegantes mais ousados de sua época.
http://www.youtube.com/watch?v=tAekrGaHtiIDireção: Ridley Scott
http://ul.to/o8akm6foDuração: 150 minutos
Ano: 1992 
Áudio: Inglês/Legendado

5 comentários:

  1. Geralmente ouvimos falar das más condições dos escravos nos navios negreiros, mas os próprios europeus que se aventuraram naquela época também tiveram péssimas condições de viagem. Interessante conhecer esse outro lado.

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  2. como era a duraçao das viagens

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    1. Normalmente entre 40 a 60 dias. Entretanto, as viagens, dependiam das condições meteorológicas.

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  3. Tonhão, tem algum post que retrata as consequências da expansão para Portugal?

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  4. Uma das consequências foi a expulsão dos judeus. Acessando o link: http://act14-anjovida.blogspot.com.br/2012/06/inquisicao-medievalmodernabrasil.html
    Você vai aprofundar um pouco mais o tema.

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