“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Antigo Egito/Complemento

     A partir de sua origem na África, os grupos humanos se dispersaram, domesticaram animais e plantas, criaram técnicas diversas, dominaram o fogo e os metais, construíram desde aldeias até grandes cidades, passaram a se organizar de forma hierarquizada e desenvolveram sociedades cada vez mais complexas.
     Entre as civilizações do mundo antigo, uma das que mais despertam curiosidade é a egípcia. As monumentais pirâmides, os complexos rituais funerários e os seus deuses tornaram o antigo Egito uma fonte de contínuo interesse, em vários períodos da História.
     Já no século V a.C., o historiador grego Heródoto, em suas inúmeras viagens, ao visitar o Egito ficou admirado com o que viu e escreveu a famosa frase: "O Egito é uma dádiva do Nilo".
     Consideramos hoje que o Egito não é uma dádiva apenas do Nilo, mas de seu povo, que cultivou suas margens, ergueu templos para seus inúmeros deuses, escreveu textos com hieróglifos em pedras e papiros, mumificou e honrou seus mortos e preservou os da classe dominante em monumentos funerários que testemunham até hoje a grandeza e a complexidade dessa civilização.
     Os egípcios construíram as maiores pirâmides há mais de 4 mil anos, portanto elas já eram muito antigas quando Heródoto as conheceu. Boa parte da história do Egito já foi estudada, mas ainda hoje se encontram vestígios com novas informações sobre os vários períodos dessa civilização.

Despotismo oriental
     O processo de formação dos Estados no Oriente Próximo apresenta muitas controvérsias. O historiador alemão Karl Wittfogel publicou, em 1957, um livro que se tornou famoso: Despotismo oriental: um estudo comparativo do poder total, dedicado exatamente ao estudo das civilizações egípcia e mesopotâmica, no Oriente Próximo, como também à China e à índia antigas, no Extremo Oriente.
     Segundo esse historiador, o surgimento de poderosos Estados agrícolas no Oriente se deveu à realização de obras hidráulicas em grande escala, envolvendo a mobilização dos camponeses sob o comando dos governantes. O resultado foi a criação do chamado despotismo oriental, no qual o Estado era proprietário de todos os bens, permitindo aos camponeses o usufruto das terras dedicadas à subsistência, mediante o pagamento de tributos em gêneros ou serviços para o Estado.
     No século XIX, Karl Marx já havia proposto interpretação semelhante, atribuindo à construção e à administração de obras hidráulicas um peso decisivo para a formação dos Estados orientais. Ele afirmou que a condição social dos camponeses era de uma "escravidão generalizada”.
     O ponto mais polêmico dessa interpretação é o papel das obras hidráulicas na formação do Estado, pois muitos historiadores puseram em dúvida a chamada "causa hidráulica". Nessa perspectiva, as obras hidráulicas seriam consequência de Estados fortes e não a causa deles. Por falta de evidências arqueológicas confiáveis, é impossível precisar com exatidão o que veio antes: o Estado ou as grandes obras. Mas o certo é que, no Oriente Próximo, surgiram Estados poderosos capazes de mobilizar enorme massa de trabalhadores para serviços públicos, isto é, não somente para construir canais, cisternas ou diques, mas também pirâmides, templos, palácios e tudo o mais que marcou a grandeza do antigo Egito e da antiga Babilônia.

A pirâmide de Quéops.
     Até hoje não se sabe exatamente como foram construídas as pirâmides. Restaram cerca de 110 delas no
Egito, sendo que as três maiores foram construídas por volta de 2500 a.C. Nessa época os egípcios não conheciam a roldana nem os veículos com rodas.
     Na pirâmide do faraó Quéops, a maior já construída, foram utilizados 2,3 milhões de blocos de granito, pesando aproximadamente 2,5 toneladas cada.
     Conta o historiador grego Heródoto que cerca de 100 mil homens trabalharam 20 anos para erguer o monumento. Muitas pessoas acreditam que escravos construíram as pirâmides. Mas foram os camponeses que, durante as cheias do Nilo, eram obrigados a trabalhar como operários nas obras. Era um imposto em forma de trabalho que às vezes custava a própria vida, como atestam restos de corpos sem identificação encontrados próximos às pirâmides.
     A construção de pirâmides requeria minuciosa organização. Os antigos engenheiros deviam dividir os camponeses operários em grupos, como os cortadores de blocos de pedra, de colunas, construtores de trenós para arrastar as pedras, cozinheiros, etc.
     O granito vinha de Tura, na margem oriental do Nilo, e era arrastado em trenós de madeira puxados pelos camponeses. À medida que a pirâmide subia, uma rampa de pedras e areia era erguida à sua volta, para nela se arrastarem os blocos, até atingir o topo. Depois eram assentadas placas de pedra calcária amarela como revestimento. Por fim, a pirâmide era polida para ficar com a superfície lisa e brilhante.
     Esses grandes monumentos requereram conhecimentos de matemática, geometria e mecânica, e incorporaram obras de arte como pinturas e esculturas.

A lenda de Osíris
     Os egípcios acreditavam que, no início de tudo, existiam apenas as águas escuras do caos, até que uma montanha surgiu. No alto da montanha apareceu Atum, o primeiro deus. Atum tossiu e surgiu Shu, o deus do ar; tossiu novamente e surgiu Tefnut, a deusa da umidade. Shu e Tefnut tiveram dois filhos: Geb, o deus da Terra, e Nut, a deusa do céu.
     Geb e Nut tiveram quatro filhos: Osíris, Ísis, Set e Néftis. Osíris era o deus da Terra e Ísis era sua esposa. Set, que tinha muita inveja de Osíris, matou o irmão, despedaçou seu corpo e jogou os pedaços por todo o Egito. Auxiliado por Anúbis, o deus chacal que farejou os pedaços de Osíris, Ísis encontrou todos os pedaços. Anúbis uniu-os com faixas, surgindo a primeira múmia. Com a ajuda da irmã Néftis, Ísis ressuscitou Osíris, que foi para o mundo subterrâneo, e Set ficou em seu lugar, na Terra.
     Ísis teve um filho de Osíris, Hórus, o deus falcão, que voava sobre o Egito e representava o Sol nascente. Quando Hórus ficou adulto, derrotou Set, mas os deuses decidiram que Hórus seria o deus do Baixo Egito, e Set seria o deus do Alto Egito. Osíris continuaria como o deus do mundo subterrâneo ou o deus dos mortos.
     A lenda de Osíris explica as origens da prática da mumificação e da crença na vida após a morte. Segundo essa crença, a alma deveria retornar ao corpo para que vivesse no mundo dos mortos, um mundo que era um Egito ideal- sem fome nem desconforto, dor ou aborrecimentos.
     Os egípcios acreditavam que a alma do morto seria admitida no reino de Osíris. De tempos em tempos ela voltaria ao corpo, que deveria ser conservado. A sobrevivência da alma estava estreitamente ligada à do corpo. Para isso os egípcios desenvolveram as técnicas de mumificação e criaram túmulos de pedra, feitos para durarem milênios. Os túmulos continham representações e objetos da vida terrena.

O mito da pesagem das almas
    Segundo algumas igrejas cristãs, as ações cometidas em vida por um indivíduo são julgadas por Deus no dia do Juízo Final. Após a morte, cada um é punido ou absolvido num tribunal divino, cuja sentença definirá a nova morada do indivíduo. Se punido, ele vai para o inferno; se absolvido, para o céu. A imagem de um tribunal divino, no entanto, não é exclusiva das igrejas cristãs. Muitas religiões professam ou professavam uma crença semelhante, inclusive a religião egípcia.
     O mito egípcio da pesagem das almas nos ajuda a compreender a concepção egípcia da morte e seus ritos funerários, como a mumificação dos cadáveres e a construção das pirâmides. Inicialmente, a prática da mumificação era exclusiva do faraó e da sua família, mas, a partir do Novo Império, houve uma ampliação desses privilégios, que passaram a ser acessíveis também às famílias de comerciantes e escribas ricos.
     Segundo o mito, para saber se o ka  de um morto  merecia ou não obter a imortalidade, um tribunal presidido por Osíris julgava as boas e más ações cometidas por essa pessoa em vida. Para que o ka pudesse ascender ao mundo dos mortos, era preciso que seu corpo terrestre estivesse preservado. A necessidade de conservar o corpo para a vida além-túmulo explicava a prática de mumificação dos cadáveres no ritual fúnebre egípcio.
     Após esse processo, o ka do morto era conduzido por Anúbis, deus da morte, à sala do julgamento. O coração do morto era pesado numa balança. Do outro lado da balança, como contrapeso, era posta uma pluma de avestruz, símbolo de Maât, a divindade que simbolizava a verdade e ajustiça. Em seguida, o morto fazia a chamada "confissão negativa", recitando todas as faltas que ele não cometeu em vida. Se os dois lados da balança se equilibrassem, o morto poderia ascender ao reino dos mortos e obter a paz. Mas, se seu coração fosse mais pesado que Maât, então o demônio Babai devorava seu ka. O resultado do julgamento era transcrito por Thot, o escriba dos deuses, num papiro para justificar a justiça divina e servir de exemplo aos vivos.
(o ka era o duplo espiritual que nascia junto com cada pessoa. O ba -que corresponde à personalidade em termos modernos- formava a outra parte da alma. Após a morte, ka e ba precisavam se encontrar novamente para que pudessem existir no além-túmulo. Nesse sentido. O corpo precisava ser preservado para manter a aparência de modo que o espírito pudesse reconhecê-lo após a morte)

Livro dos mortos
     O Livro dos mortos é uma coleção de textos egípcios que reúne orações, hinos e fórmulas mágicas, destinados a orientar os mortos em seu caminho para o além-mundo. 
     "Confissão Negativa" do Livro dos mortos:
     Quando o morto entra no salão dos deuses da verdade, ele diz:
     "Reverência a ti, ó grande deus, senhor da verdade. Perante ti compareço para que eu possa experimentar tua misericórdia. Conheço a ti, conheço teu nome. [".] Trouxe a ti apenas a verdade e para ti destruí toda maldade.
§  Não pequei contra os homens. Não fiz mal a meus parentes.
§  Não oprimi escravos. Não pensei no deus com menosprezo.
§  Não lesei o pobre de seus bens. Não fiz com que o escravo fosse maltratado.
§  Não provoquei sofrimento. Não permiti que nenhum homem passasse fome.
§  Não assassinei nenhum homem.
§  Não roubei as oferendas dos templos.
§  Não roubei terras nem ampliei as minhas por este meio.
§  Não represei água quando ela deveria fluir.
§  Não desviei gado de propriedade dos deuses.
§  Sou puro. Sou puro. Sou puro. Sou puro."
(Livro dos mortos [s/d]. In: ELIADE, Mircea. O conhecimento sagrado de todas as eras. São Paulo: Mercuryo, 1995)

As múmias do antigo Egito
     Os antigos egípcios acreditavam na vida após a morte e, por isso, mumificavam os mortos, ou seja, preparavam e embalsamavam o corpo. A mumificação osiriana, descrita a seguir, era privativa dos faraós e das elites egípcias.
     O cérebro era retirado do crânio pelas narinas com um instrumento curvo, após amolecê-lo injetando um tipo de vinho de tâmaras.
     Retiravam-se todos os órgãos internos do corpo, menos o coração, por meio de uma incisão no abdômen. Depois enchia-se o corpo com saquinhos de sal para absorver os líquidos. Decorridos 72 dias, o corpo escurecido e ressecado era enxertado de perfumes e resinas. Finalmente era enfaixado. A múmia estava pronta para ser colocada no sarcófago e seguir para tumba.
     No caso dos faraós do Antigo Império, esses túmulos eram as pirâmides. Durante o Novo Império, começou a ser composta uma coletânea de orações, cânticos e preceitos conhecida como Livro dos Mortos, visando instruir o defunto sobre como proceder no percurso após a morte.

A maldição de Tutankamon
      O faraó Tutankamon ficou famoso por restaurar a supremacia do culto de Amon no antigo Egito, suprimindo a de Akhenaton, que Amenófis IV havia estabelecido. Sua múmia tornou-se também a mais famosa. A tumba foi descoberta em 1922, pelo egiptólogo britânico Howard Carter, após inúmeras tentativas frustradas. Diversos participantes da escavação morreram pouco depois da descoberta, todos em circunstâncias estranhas.
     Logo surgiu a lenda de que a múmia do faraó trazia desgraça e morte para aqueles que a tocassem. Assim surgiu a maldição de Tutankamon. Mais tarde, cientistas levantaram a hipótese de que a tumba do faraó continha vírus milenares que contaminaram o ar. Seja como for, o chefe da expedição arqueológica, Howard Carter, faleceu de causas naturais somente muitos anos depois da descoberta.

A Mulher Egípcia
      “A família egípcia parece apresentar a marca de antigos usos que davam à mulher um lugar muito amplo, talvez mesmo de preponderância. Invocava-se frequentemente, por exemplo, a filiação materna pelo menos em pé de igualdade com a ascendência paterna. Em caso de morte de marido, se não havia um filho adulto, a mulher assumia a chefia da família, inclusive no que dizia respeito às relações com o Estado. De maneira oficial, talvez após um certo tempo, principalmente depois de se tornar mãe, era chamada 'dona da casa', e tal expressão parece ter revestido seu pleno sentido jurídico, embora a casa proviesse do marido”
(AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. História geral das civilizações. 6. ed., tomo I, v. 1. Rio de Janeiro: Difel, 1977)

FONTE:
História, ensino médio. Organizadores: Fausto Henrique Gomes Nogueira, Marcos Alexandre Capellari. - 1. ed. - São Paulo: Edições SM,2010. - (Coleção ser protagonista)
História: das cavernas ao terceiro Milênio /Patrícia Ramos Braick. Myriam Becho Mata. 2. ed. - São Paulo: Moderna, 2010.
História: das sociedades sem Estado às monarquias absolutistas, volume 1 /Ronaldo Vainfas... [et al.] - São Paulo: Saraiva, 2010.

Vídeo Aula        
Aula 04 - O Antigo Egito (1 de 2)



Aula 04 - O Antigo Egito (2 de 2)

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