“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Wenceslau Braz - A gripe espanhola

De "Lalau" a santo
Com um jeito discreto e equilibrado, Wenceslau Braz presidiu o Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, reduziu o próprio salário e tirou o país da crise.
Rodrigo Elias
     A recepção não foi das melhores. Enquanto o presidente Wences­lau Braz (1914-1918) desfilava em carro aberto no dia da posse no Rio de Janeiro, alguém lhe ati­rou um objeto de dentro do Campo de Santana. Policiais da escolta pensaram se tratar de uma bomba, mas logo viram que não passava de uma jaca jogada por um gaiato que se escondeu entre as árvores. Entretanto, o medo não era infundado: Wen­ceslau herdou os inimigos de seu antecessor, Hermes da Fonseca (1910-1914), de quem fora vice-presidente, que ainda lhe deixou um país em frangalhos, uma dí­vida enorme e as instituições re­publicanas próximas à ruína.
     Filho de um poderoso coronel, Wenceslau Braz Pereira Gomes nasceu em fevereiro de 1868, em São Caetano da Vargem Grande, hoje Brazópolis, no sul de Minas Gerais. Sua mãe, Isabel Pereira dos Santos, administrava a casa nas constantes ausências do marido e ainda o substituía em compro­missos políticos. Seu pai, Francis­co Braz Pereira Gomes, era um chefe político importante da re­gião, apesar de nunca ter frequentado uma sala de aula - fato do qual se lastimava, fazendo questão de que os filhos estudassem. O velho Chico Braz era um entusiasta da educação, tendo fundado uma escola normal, além de destinar o dinheiro que recebia por exercício de cargos públicos a instituições de ensino e caridade.
     O jovem Wenceslau não foi, como o pai pretendia, aluno exemplar. Matriculado em 1884 na Faculdade de Direito de São Paulo - onde gravara o nome à ponta de canivete em sua cartei­ra -, suas notas não ultrapassavam a mediocridade. Chegou a afirmar em uma entrevista, já aos 96 anos (Wenceslau foi o presidente brasileiro mais longe­vo): "abusei da mocidade!"
     Mas seu discreto rendimento escolar não refletia o gosto pelos assuntos públicos. Ainda estudan­te, foi responsável pela instalação em sua cidade do Partido Republi­cano e Abolicionista, dedicando-se à libertação de escravos e à difusão da alfabetização. Antes de comple­tar vinte anos, foi convidado por políticos da região para ocupar uma vaga de deputado provincial, não podendo atender devido à pouca idade.
     Bacharelado em Direito em 1890, Braz voltou a Mi­nas para advogar. Pouco depois já era vereador e, em seguida, presiden­te da Câmara de Vereadores (equi­valente hoje ao cargo de prefeito) da cidade de Mon­te Santo. Deputado estadual entre 1892 e 1898, foi secretário de Inte­rior, Justiça e Segurança Pública de Minas de 1898 a 1902. Já estava casado, nesta época, com a filha de um chefe político do sul mineiro, Maria Carneiro Pereira Gomes, mãe dos seus sete filhos.
     A ascensão política de Wences­lau foi, de fato, meteórica, e aos 35 anos ele já era deputado federal e líder da bancada mineira no Con­gresso Nacional, passando rapida­mente a líder da maioria. Aos 41 anos, em 1909, assumia a presi­dência do estado de Minas Gerais, um dos mais poderosos da federa­ção e, no ano seguinte, era eleito vice-presidente da República na chapa de Hermes da Fonseca. Cabia-lhe, de acordo com a Constituição de 1891, a presidência do Senado, mas Wenceslau, mineiramente, retirou-se para Itajubá, próximo à sua ci­dade natal, dedi­cando-se a um de seus passatempos favoritos, a pesca­ria. Ficou de fora das crises políticas do azarado - e pouco competente - Dudu (ver Hermes da Fonseca), en­quanto o Senado e todo o gover­no eram conduzidos pelo sena­dor gaúcho Pinheiro Machado.
      Em 1913, a questão sucessória se apresentava. Uma acirrada ne­gociação entre líderes de todos os estados cogitou os nomes dos ex-presidentes Campos Salles e Ro­drigues Alves, além do senador Rui Barbosa. Mas forças políticas se uniram em torno de Wences­lau Braz - indicação de Pinheiro Machado, que supunha encontrar no mineiro o fantoche que lhe fora Hermes. Enganou-se.
     Eleito em 1914 com 532.107 votos, "seu Lalau", como Wences­lau também era conhecido, tomou posse na Presidência com o seu vice, o maranhense Urbano San­tos (1859-1922), em meio à des­confiança. Era o mais jovem pre­sidente eleito, e temia-se que a influência de Pinheiro Machado durante a "pagodeira hermista" se repetisse no seu mandato. Um jor­nal da época afirmou que Pinhei­ro pretendia "dispor eternamente dos governos como das suas éguas na fazenda da Boa Vista".
     O panorama ao início do go­verno Wenceslau Braz não era, portanto, promissor. Mas o apa­rentemente tímido e omisso Lalau revelou-se um determinado ho­mem de Estado. No discurso da posse, deu o tom do seu governo: "Ao patriotismo dos homens de responsabilidade do Brasil se im­põe, iniludivelmente, uma gran­de obra de construção política e econômica e restauração finan­ceira. Está bem claro que esta dupla obra exige uma mesma base: intransigência moral, administra­tiva, absoluto respeito às leis, im­parcial aplicação dessas, paz, or­dem em todas as modalidades".
     Assumindo uma economia à beira do colapso (300 mil contos de réis em dívidas a pagar, o que ultrapassava 70% da arrecadação bruta de 1914), sua primeira preocupação foi a contenção de gastos. Assim, enviou ao Congres­so um pedido de corte de 50% no próprio salário. O Congresso, tal­vez temeroso do mau exemplo, limitou a redução a 20%. Wences­lau utilizava o próprio carro, servindo-se de transporte oficial em raríssimas ocasiões e impedindo seus familiares de fazê-lo. À dife­rença da festa na qual se tornara o Palácio do Catete no governo an­terior, houve apenas uma celebra­ção naquela residência oficial du­rante o seu mandato, quando a primeira-dama, dona Maria Car­neiro, organizou uma recepção para angariar donativos para fla­gelados do Nordeste.
     Estas medidas, apesar de moralizadoras, não tinham efeitos prá­ticos no gigantesco rombo das contas estatais. Mas dava ao gover­no autoridade moral para agir em outras frentes, cobrando a unifica­ção das receitas e despesas da União; a abolição de remuneração nas convocações extraordinárias do Congresso e a eliminação das autorizações extra-orçamentárias, que considerava "ruinosa prática".
     A escolha do ministério favo­receu critérios de recuperação econômica e independência polí­tica, recusando-se Wenceslau a acatar indicações tanto de Pi­nheiro Machado quanto de seus opositores. Colocou à frente dos dois principais ministérios, Fa­zenda e Agricultura, dois homens ligados às finanças, respectiva­mente o mineiro Sabino Barroso e o fluminense Pandiá Calógeras, este último ligado a Minas. Wen­ceslau fiscalizava todo o trabalho de sua equipe; opinava sobre tu­do, e ficou conhecida a sua práti­ca de enviar bilhetes e recortes de jornal para os ministros e auxi­liares diretos. Sua antecipação so­bre vários assuntos causava, se­gundo um assessor, "perplexida­de de uns e admiração de outros".
     Outro problema com o qual se deparou foi a sucessão do governo do Rio de Janeiro. O candidato apoiado por Pinheiro Machado, Feliciano Sodré, havia vencido as eleições, mas o Supremo Tribunal Federal concedera habeas corpus ao seu adversário, o ex-presidente Nilo Peçanha, declarando-o habi­litado para a posse. Wenceslau, le­galista contumaz, não hesitou e obedeceu a decisão do STF, colo­cando tropas à disposição da Jus­tiça e empossando Nilo.
     Wenceslau Braz teve que lidar com grandes conflagrações den­tro e fora do país. A Guerra do Contestado, que se arrastava des­de 1912, nascida em meio à dispu­ta na demarcação de limites entre Paraná e Santa 
Catarina, agravada pela presença de um movimento messiânico que pegou em armas, revelou o estilo de governar de Wenceslau. Enérgico em um pri­meiro momento, o presidente despachou tropas federais que, após várias expedições e com apoio das forças locais, esmaga­ram os revoltosos em 1916. Após a força, a conciliação. "Perso­nificação do meio-termo", como um crítico o definiu, o presidente chamou ao Catete os líderes dos estados antagonistas, que acaba­ram por aceitar, em outubro de 1916, a divisão da área em litígio.
     No plano externo, encontrou a Europa em plena Primeira Gran­de Guerra, iniciada em julho de 1914. O Brasil tomou parte direta no conflito após o torpedeamento de quatro navios mercan­tes por submarinos alemães. Em outubro de 1917, em mensagem enviada ao Congresso, o presi­dente afirmava que não cabia ao governo mais do que reconhecer o estado de beligerância imposto pela Alemanha. Assim, em agosto de 1918, às vésperas do armistí­cio, foi enviada à Europa uma frota brasileira que, no entanto, não chegou a participar do con­flito, tendo-se abatido sobre a tri­pulação um surto de gripe espa­nhola, causando 156 baixas.
     A gripe, aliás, foi grande em­pecilho à normalização nacional. Apenas no Rio de Janeiro, entre setembro e novembro de 1918, os mortos já chegavam a 17 mil. As ruas, escolas, lojas e repartições públicas desertas contrastavam com os hospitais e cemitérios su­perlotados. A doença não foi ven­cida no mandato de Wenceslau, e chegou a matar o seu sucessor, Rodrigues Alves, em 1919, antes de tomar posse da Presidência.
     Para piorar a situação finan­ceira do país, que apresentou em 1914 déficit na balança comercial pelo segundo ano consecutivo, o conflito europeu praticamente fe­chou o principal mercado para o café. Da mesma forma, recursos externos antes disponíveis para investimento no país foram cana­lizados para os gastos bélicos.
     O conflito na Europa, nocivo ao Brasil em um primeiro momento, favoreceu o desenvolvimento da indústria nacional, uma vez que o parque industrial europeu se vol­tou para o esforço de guerra. Pôde-se notar considerável incre­mento industrial em várias re­giões, sobretudo a partir da ex­ploração do carvão mineral e da produção de ferro-gusa. O Brasil também passou a exportar outros produtos, como o manganês, cujas rendas alfandegárias saltaram de 1.200 contos em 1914 para 57 mil contos em 1917. Assim, o incremento do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, negativo em 1,25% em 1914, subiu 9,4% em 1917.
     Durante o seu governo foi ela­borado ainda o Código Civil, promulgado em 1916, conhecido como "Código Wenceslau", que vigorou até 2002. Wenceslau ain­da promoveu uma reforma no ensino, restaurando o rigor nos exames de humanidades e con­tratando professores mais quali­ficados através de concursos. Os resultados da mudança, já no pri­meiro ano, foram enormes: as re­provações passaram de 2% para 60% nos exames finais do ensino médio, e as aprovações nos con­cursos para os cursos superiores na capital federal saltaram na mesma proporção.
     Deixando a Presidência, não se dedicaria mais à política. Se­gundo suas palavras, "depois de ter sido presidente, a nada mais deve aspirar um homem na vida pública". Voltando a Itajubá, onde morreria, aos 98 anos, em 1966, dedicou-se aos negócios, dirigin­do empresas como uma fábrica de tecidos e um banco, não dei­xando, entretanto, de reservar tempo para o que mais gostava de fazer: caçar e pescar.
     Sua obra política, financeira, legislativa e administrativa deu vigor a um país à beira do abis­mo. Seu Lalau, recebido em 1914 com arremessos de jaca, deixou a capital federal em 15 de novem­ novem­bro de 1918, aclamado pelo povo, pelos políticos e pela imprensa. A esta altura, já o chamavam de "São Wenceslau".
Rodrigo Elias é professor das Faculdades Integradas Simonsen e pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 32 – Julho - 2006



Memória da peste
Parecia o fim do mundo: cadáveres insepultos, falta de comida e de remédios para enfrentar a maior epidemia de todos os tempos. No Rio de Janeiro, usada politicamente, a gripe espanhola construiu e destruiu reputações.
Adriana da Costa Goulart
      Num espaço de oito meses, a gripe espa­nhola matou entre 50 a 100 milhões de pessoas no mundo. Na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, os índices de mortalidade alcançaram cifras nunca imaginadas. No mês de setembro de 1918 morreram 48 pessoas, e em outubro os óbitos aumentaram em 2.000%. Apenas no dia 22 desse mês registra-ram-se 890 mortes.
     Vistas no passado como consequência dos mias­mas que habitam as imundícies e os ares fétidos, as epidemias evocam medos ancestrais, que remontam à antiguidade e à Idade Média. De fato, sobreviven­tes da espanhola, entrevistados por mim, hesitaram em pronunciar o nome da gripe, como se sua sim­ples menção pudesse desencadear novamente a tra­gédia vivida.
     Nas suas memórias, o médico Pedro Nava des­creve aquele dramático período da seguinte forma: "Aqueles dias ninguém que os tenha vivido poderá jamais esquecê-los; tudo era de um cinza purulento, dum roxo podre, poente de chuva, saimento, mar­cha fúnebre, viscosidade e catarro."
     Os primeiros brasileiros a contraírem a gripe fo­ram os oficiais do Exército que integravam a Missão Médica Brasileira. Estavam a caminho de Dacar, no Senegal, com a missão de auxiliar as forças aliadas. Durante o trajeto, muitos adoeceram e morreram, tendo seus corpos lançados ao mar. A notícia che­gou ao Brasil, por cabograma, no dia 26 de setem­bro de 1918. A gravidade do acontecimento e a ex­pansão da moléstia foi, no entanto, ignorada pelas autoridades, na verdade sem recursos para montar uma estratégia de socorro à população.
     As primeiras notícias sobre a peste que devastava a Europa, publicadas pela imprensa nos últimos dias de setembro de 1918, também foram encaradas com displicência. Algumas vezes, como aparece na revista A Careta, as notícias eram abordadas de for­ma cômica e num tom de crítica política: a gripe vista como arma bacteriológica criada pelos ale­mães para vencer a Primeira Guerra e afastar dos combates os países neutros.
     Tal visão da espanhola só se desfez quando as pes­soas começaram a adoecer em massa e as ruas da ci­dade a se encher de cadáveres. A incubação da gripe durava de três a sete dias. De uma simples zoeira nos ouvidos, surdez, dores de cabeça e oscilação de tem­peratura, a doença se desenvolvia com os infectados apresentando calafrios, hemorragias intensas, urina e vómitos misturados a sangue. Tal quadro era acompanhado de perturbações nos nervos cardía­cos, infecções nos intestinos, pulmões e meninges, levando as vítimas a sufocações, a diarreias, dores lancinantes, à letargia, ao coma, à intoxicação pela falta de funcionamento dos rins, a cianose (azulamento da pele), à síncope e finalmente à morte em algumas horas ou dias, cuja proximidade era conhe­cida pelo escurecimento dos pés das vítimas. O doente passava a maior parte do tempo em delírio, devido à febre alta.
     Em muitas casas, famílias inteiras caíam acama­das, dependendo de quem pela rua passasse para que se pudessem alimentar e receber remédios. Essa função acabava sendo exercida por lixeiros, coveiros e policiais, que acudiam os "espanholados". Colovavam-se panos negros nas janelas para indicar que na casa havia doentes necessitando de socorro.
     Quando as mortes se intensificaram e não se dava mais vazão às demandas por enterros, punham-se os pés dos mortos escorados nas janelas das casas para que a Assistência Pública viesse recolher o corpo. Para cobrir a demanda por caixões, passaram a fabricá-los com tábuas retiradas dos tetos e assoalhos das casas. Com o acirramento da crise nos serviços funerários, a população deixava no meio da rua os corpos dos pa­rentes que já apresentavam sinais de decomposição.
     Numa tentativa de normalizar a coleta dos cadá­veres insepultos foram utilizados caminhões de lixo e bondes, estes apelidados pela população de "trens fantasmas", pois transportavam os defuntos amortalhados em lençóis brancos, não sendo raro encon­trar alguns vivos entre os mortos. Visando contornar a falta de coveiros, para os serviços funerários convocaram-se os presos da Casa de Correção, pre­sídio localizado no Rio de Janeiro, o que só fez au­mentar o pânico da população. Circulavam boatos de que os detentos mutilavam os dedos e as orelhas dos mortos para roubar brincos e anéis, entre ou­tros mais assombrosos e impactantes.
     A Santa Casa da Misericórdia, único hospital vol­tado para o atendimento do público na cidade, rece­beu da população a alcunha de "Casa do Diabo". Devido ao elevado número de mortes na instituição, difundiu-se pela cidade que ali se ministrava aos doentes mais crônicos uma tisana letal, imortalizada na memória popular como "chá da meia-noite" - su­postamente uma mistura de chá com arsénico.
     Algumas instituições foram de grande importân­cia no auxílio da população como a Cruz Vermelha Brasileira, que improvisou vários hospitais pela cida­de para atender ao público, e o Corpo de Bombeiros que distribuía sopas aos necessitados. Os bombeiros eram responsáveis também pela venda das galinhas que passaram a ser confiscadas pelo governo em granjas e casas particulares. A canja, feita com arroz e galinha, era tida como um ótimo alimento na recupe­ração dos doentes. Isso originou um mercado negro de galinhas e vários quebra-quebras pela cidade, con­sequentes da acirrada disputa pelas valiosas aves. O colapso das instituições de saúde pública, jun­tamente com a falta de médicos, leitos nos hospitais, remédios e alimentos, despertou a ira da população. Mesmo diante do caos instaurado, as autoridades políticas e sanitárias insistiam em defender publica­mente a benignidade do mal reinante, tornando mais agudas as tensões sociais instauradas pela pan­demia, que construiu e destruiu reputações. A im­prensa conduziu à execração pública, por exemplo, o diretor-geral da Saúde Pública, Carlos Seidl. Bode expiatório da gripe espanhola, sua perda de prestígio social foi tamanha que ele jamais se recuperou.
     Foi nesse contexto que a figura de Carlos Chagas emergiu como herdeiro científico de Oswaldo Cruz. A opinião pública exigiu que o comando dos servi­ços de socorro público no combate à gripe fosse en­tregue a ele. Chagas foi então requisitado pelo presi­dente da República, Venceslau Brás, para adminis­trar as atividades de socorro à população enferma.
     No auge da epidemia tudo se desorganizou, invia­bilizando funcionamento da cidade, na época cen­tro administrativo e político do país. As repartições fecharam por falta de funcionários e os colégios suspenderam as aulas. Diante de todos esses problemas, o próprio presidente Venceslau Brás (1914-1918) foi acusado de incompetência política. Saiu do episódio achincalhado pelos seus adversários políticos e pela opinião pública. Não se candidatou a cargo político pelo resto da vida.
     A epidemia foi manipulada, politicamente, por partidários do conselheiro Rodrigues Alves, que se candidatara a novo mandato presidencial. Ironia do destino, acabaria como uma das vítimas mais ilus­tres da espanhola. Idoso, não resistiu à investida da gripe e morreu no dia 16 de janeiro de 1919.
     De todo modo, a gripe contribuiu para que as questões de saúde ganhassem mais atenção na agenda política do governo seguinte. Permaneceu, no entanto, como um enigma. Desde a década de 80 do século passado, cientistas americanos, ingle­ses e canadenses percorrem o mundo atrás de cor­pos conservados de vítimas, de onde possam de­sentranhar o vírus adormecido. Até hoje, não se conseguiu produzir em laboratório a carga viral completa da maior epidemia de todos os tempos. O trabalho de detetive desses cientistas se justifica: não estamos livres de uma nova gripe assassina. Para a ciência, é apenas uma questão de tempo. Resta saber se até lá teremos instrumentos eficazes para impedir ou pelo menos atenuar os seus efeitos catastróficos.
Adriana da Costa Goulart é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense onde defendeu dissertação intitulada Um cenário mefistofélico: a gripe espanhola no Rio de Janeiro, no ano de 2003.
Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 3 - 2004

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