“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Ingmar Bergman - Especial

O ovo da serpente 
Rodado em 1977, filme do sueco Ingmar Bergman retrata a Alemanha nos primeiros anos após a Primeira Guerra Mundial. Obra identifica a década de 1920 como o período em que o nazismo começou a ganhar forma.
Alexandre Enrique Leitão
       Berlim, 1923. Nas ruas miseráveis da cidade alemã, um homem esguio caminha silenciosamente durante a madrugada. Ao virar uma esquina, ele se depara com uma cena inquietante: mãe e filha, vestindo roupas esfarrapadas, devoram a carcaça de um cavalo. Mais adiante, a uma larga distância, o homem testemunha um grupo uniformizado agredindo um indivíduo desarmado. Sua única atitude é fugir. A sequência de acontecimentos faz parte de O ovo da serpente, de Ingmar Bergman – filme que talvez faça o retrato mais perfeito da República de Weimar e que capte com mais sutileza o surgimento do nazismo.
     O homem em questão, o andarilho das noites berlinenses, é Abel Rosenberg, um acrobata de circo de origem judaica, que logo nos primeiros minutos da película fica estarrecido com a notícia do suicídio do irmão. Interpretado por David Carradine, o personagem decide resolver questões pendentes de seu ente querido, desvendando aquilo que pode ser o que realmente ocorreu com seu irmão.
     Produzido em 1977, O Ovo da Serpente sempre foi considerado por Bergman o seu pior filme. Em parte pelas brigas que teve no set com Carradine; em parte por se tratar de uma obra com claro foco na narrativa - em detrimento do cinema mais contemplativo e intelectual que o diretor sueco vinha fazendo. Mesmo assim, a obra continua a chocar: retrata uma sociedade à beira do caos econômico e político e demonstra como, sob essas circunstâncias, é possível ver os contornos do nascente movimento fascista.
     Bergman faz poucas menções diretas a Hitler e ao Partido Nazista, mas ainda assim conseguimos percebe-los. Seja quando uma turba uniformizada invade um cabaret para agredir seu mestre de cerimônias, ou quando surge a figura do Inspetor Bauer, responsável por investigar a morte do irmão de Abel. Bauer, interpretado pelo lendário ator alemão Gert Fröbe, é um policial, mas mais do que isso, é um burocrata inserido dentro da tradição de ordem prussiana. Em um de seus interrogatórios com Abel, o inspetor parece encarnar a melancolia do pós-Primeira Guerra Mundial. Sua maior frustração é ver seu país, que um dia foi Império, adentrar numa espiral de anarquia, resumida com perfeição na sentença: “Sexta-feira eu quis ir a Stettin ver minha mãe idosa, que completava oitenta anos, mas não havia horários para os trens. Havia um trem que ia para lá, mas sem horário. Imagine! Uma Alemanha sem horários!”.
     Por meio do inspetor Bauer, ficamos sabendo que o país está com dificuldades para pagar as reparações de guerra exigidas pela França e pela Inglaterra; percebemos também que a taxa de câmbio é de 1 dólar para 5 bilhões de marcos, ou que comunistas estão infiltrados em todos os escritórios; e até mesmo que Herr Hitler planeja um golpe de Estado em Munique. Em verdade, todos os eventos do filme se circunscrevem ao momento do famoso Putsch da Cervejaria, ocorrido no dia 9 de novembro de 1923. Nessa data, aniversário de cinco anos da Declaração da República de Weimar, Hitler e as SA (as milícias nazistas) tentaram derrubar o governo da região da Bavária, a fim de iniciar uma marcha militar com objetivo final de ocupar Berlim e o estabelecer uma ditadura nacional-socialista.
        Considerado um dos maiores fiascos da história política do século XX, o putsch foi rapidamente suprimido pela polícia de Munique e Hitler encarcerado na prisão de Landsberg. Em sua cela, o líder do movimento nazista escreveu o livro Minha Luta (Mein Kampf), repensando toda a estratégia de seu partido, e o preparando para conquistar o poder por vias eleitorais – projeto que acabaria se mostrando bem-sucedido em 1933, quando ele foi nomeado primeiro-ministro.
     No filme, o papel de anunciador da nova e terrível era de totalitarismo, que se avizinhava da Alemanha, cabe ao personagem do Dr. Hans Vergerus, um enigmático cientista que, sem motivo aparente, oferece sua ajuda a Abel e a cunhada Manuela. Liv Ullman, esposa e musa de Bergman, dá vida à moça, mostrada como uma das últimas almas esperançosas em meio às ruínas de uma Berlim falida.
     Dotado de uma fotografia que privilegia os tons cinzentos e pastéis, O Ovo da Serpente adere a uma narrativa convencional de mistério e é feito, sobretudo, como uma fábula de advertência. Dez anos antes da subida dos nazistas ao poder, já se podia ver um fantasma rondando as vielas da Alemanha e pressupor que em meio à desordem, à crise econômica e ao vácuo político, uma semente de radicalismo e violência estava para brotar. Como afirma um dos personagens, já no clímax da película, aquele não era o momento do sucesso de Hitler – a vitória só chegaria em alguns anos, quando os jovens do país se tornassem adultos e se vissem cansados de viver em uma terra amargurada.
     Ao cabo da trama, sentencia-se que o fascismo era uma ameaça perceptível, como anunciou Dr. Vergerus em determinado momento do filme: “É como o ovo de uma serpente. Através das finas membranas, você pode claramente discernir o réptil já perfeito”.
Direção: Ingmar Bergman
Ano: 1977
Áudio: Alemão, Inglês /Legendado.
Duração: 120 minutos.

Ernst Ingmar Bergman, considerado por alguns críticos como o maior cineasta da história, nasceu em Uppsala, Suécia, em 14 de julho de 1918. Seu pai, pastor luterano que tornou-se capelão do rei da Suécia, costumava humilhar e surrar Ingmar, uma criança doente. Críticos atribuem os temas de repressão, culpa e castigo, constantes em sua obra, à educação rígida que o diretor teve em sua infância.
Numa carreira que cobriu meio século e durante a qual ele criou mais de 50 filmes e 125 produções teatrais, Bergman tornou-se a mais aclamada personalidade cultural da Escandinávia.
     Em entrevista rara concedida em 2001, Bergman disse à Reuters que durante toda sua vida ele foi atormentado e inspirado por demônios pessoais. "Os demônios são inúmeros, aparecem nos momentos mais impróprios e geram pânico e terror", disse ele na época. "Mas já aprendi que, se consigo controlar as forças negativas e atrelá-las a minha carruagem, elas podem trabalhar em meu benefício."
     Nunca o vínculo autobiográfico ficou mais claro que em "Fanny e Alexandre", que Bergman afirmou ser sua grande final como cineasta. O filme recebeu quatro Oscar em 1984, um deles de melhor filme em língua estrangeira.
     "Fanny e Alexandre" é um panorama detalhado de uma família de classe alta de Uppsala nos anos que antecederam a 1ª Guerra Mundial. O garoto Alexandre, 10 anos, e sua irmã Fanny, 8, são mental e fisicamente abusados por seu padrasto, o bispo local, inspirado no pai de Bergman.
     O tímido e fraco Alexandre usa poderes sobrenaturais para vingar-se de seu padrasto de maneira sinistra.
     Em seus últimos anos de vida, Bergman dedicou-se ao trabalho de palco no Real Teatro Dramático de Estocolmo, demonstrando preferência por obras teatrais clássicas.
     Talvez o melhor comentário sobre Ingmar Bergman tenha partido de Jean-Luc Godard: "O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico". (Jean-Luc Godard, "Bergmanorama", Cahiers du cinéma, Julho – 1958).
     O diretor e roteirista morreu em sua casa na ilha de Faro (30 de julho de 2007), no mar Báltico aos 89 anos, de forma tranquila – segundo sua filha, Eva Bergman.
Saiba Mais - Filmes:
O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet)
O tema fundamental do filme é a questão do medo da morte; um cavaleiro que volta das Cruzadas para encontrar em sua terra a peste e a morte. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte (Bengt Ekerot) surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Objetivando ganhar tempo, convida-a para um jogo de xadrez que decidirá se ele parte com a Morte ou não. Tudo depende da sua vitória no jogo e a Morte concorda com o desafio, já que não perde nunca.
Apesar de perder o jogo, a Morte continua a perseguí-lo enquanto viaja pela Suécia medieval. No mundo medieval tudo era entendido através da religião, então o sentido da indagação do cavaleiro é questionar a religiosidade, incluindo o papel de Deus e do Diabo na vida humana.
Direção: Ingmar Bergman
Ano: 1957
Áudio: Sueco, Latim/Legendado.
Duração: 97 minutos.

Morangos Silvestres (Smultronstället)
O professor de medicina Isak Borg (Victor Sjöström), dirige com sua nora Marianne (Ingrid Thulin) de Estocolmo a Lund para receber um título honorífico da Universidade de Lund por seus 50 anos de carreira. Na noite que antecipa sua viagem a Lund, Isak Borg tem um pesadelo que o confronta com a realidade da morte. No caminho, relembra os principais momentos de sua vida, temendo a morte que se aproxima. Conhece diversas pessoas na estrada, desde Sara e os seus companheiros de viagem , Viktor e Anders, os quais se dirigem para Itália, assim como um casal que faz lembrar Isak a sua própria vida e casamento.
O impacto de antigas lembranças leva o médico a um estado onírico, onde vê Sara (Bibi Andersson) oferecendo morangos silvestres no jardim de sua casa. Entre o passado, o presente e a imaginação, Isak abandona as angústias e experimenta uma nova comunhão com a vida.
Direção: Ingmar Bergman
Ano: 1957
Áudio: Sueco/Legendado.
Duração: 90 minutos.

Persona
O filme conta a história de Elizabeth Vogler (Liv Ullmann), uma atriz que surta durante a apresentação da tragédia Electra. Como consequência, Elizabeth repousa em uma clínica psiquiátrica. A médica responsável conclui que sua estadia na clínica não surte resultado e assim sugeria que ela vá para sua casa de praia junto com uma enfermeira Alma (Bibi Andersson). Mesmo na praia Elizabeth recusa-se a voltar a falar, mas isso não impede que uma forte relação de identificação se estabeleça entre ela e Alma, passando a desenvolver uma intimidade e cumplicidade crescentes. Quando Alma sente sua confiança traída, ela volta-se contra Elizabeth e os papéis que representavam até o momento são invertidos. Por fim, as duas voltam da praia, e Elizabeth retoma seu trabalho de atriz.
Direção: Ingmar Bergman
Ano: 1966
Áudio: Sueco/Legendado.
Duração: 79 minutos.

Gritos e Sussurros (Viskningar och rop)
Em uma casa no campo uma mulher Agnes (Harriet Andersson) está bastante enferma e recebe cuidados de suas duas irmãs Maria (Liv Ullmann) e Karin (Ingrid Thulin), e de uma empregada da família Anna (Kari Sylwan), que precocemente perdeu sua filha e por isso extravasa seu amor de mãe dando o maior carinho possível para aquela moça tão debilitada. Dentro deste contexto lembranças, frustrações e imaginações em um misto de amor e ódio surgem no interior de cada pessoa.
O nome do filme é o fio condutor dos personagens. São os gritos de desespero causados pela dor, o tic-tac interminável do relógio e os sussurros das irmãs pelos sombrios corredores da casa, que compõe a trilha sonora.
Ingmar Bergman definiu Gritos e Sussurros como um filme que se aproxima mais de um estado de alma do que propriamente de uma história a ser narrada dentro dos princípios básicos do cinema.
Ganhou o Oscar de Melhor Fotografia além de ter sido indicado para Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Figurino. Recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e duas indicações ao BAFTA de Melhor Atriz para Ingrid Thulin e Melhor Fotografia. Ganhou ainda o Prêmio Bodil de Melhor Filme Europeu e o Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes.
Direção: Ingmar Bergman
Ano: 1972
Áudio: Sueco/Legendado.
Duração: 91 minutos.

Fanny e Alexander (Fanny och Alexander)
Na história, o menino Alexander (Bertil Guve), vive com os pais e a irmã Fanny (Pernilla Allwin), em um imenso casarão que pertence à sua avó materna. Seu avô fora o diretor do teatro da cidade e após a morte dele, o seu pai assumiu a administração. Toda a família está direta ou indiretamente ligada ao teatro e Fanny e Alexander tem uma vida cheia de amor, carinho e tudo o mais que uma criança poderia querer. A repentina morte do pai, no entanto muda completamente a vida dos meninos. A mãe deles se casa com um severo bispo Luterano, que a trata a partir de então como uma serva e as crianças como prisioneiros, quando ela percebe o erro cometido ao se casar de novo, já é tarde demais para tentar voltar atrás. Os tempos bons que ficaram para trás se tornam cada vez mais distantes. Apenas Alexander tem dentro de si uma rota de fuga, que pode o levar de volta para os tempos de alegria.
O desfecho do filme é carregado de significados não aparentes e simbolismos, tão presentes em toda a filmografia do diretor. Em uma entrevista ele chegou a comentar: “O privilégio da infância é podermos transitar livremente entre a magia da vida e os mingaus de aveia, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites (...). Eu sentia dificuldade para distinguir entre o que era imaginado e o que era real...”.
Direção: Ingmar Bergman
Ano: 1982
Áudio: Sueco/Legendado.
Duração: 180 minutos.

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