“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

sábado, 17 de novembro de 2012

Misticismo e sangue

No alvorecer da República, eclode a Guerra de Canudos, episódio que demonstrou a fragilidade do novo Estado brasileiro. O conflito entre exército e seguidores de Antônio Conselheiro foi representado algumas vezes no cinema 
Por Alexandre Leitão
"Aquela campanha [de Canudos] lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo".                         Euclides da Cunha, Os Sertões.

     A Guerra de Canudos marcou com sangue a formação da República do Brasil. Os motivos por trás da eclosão do conflito são complexos e se estendem para além do período imediatamente posterior à Proclamação, em 1889. Sua sombra pesa até hoje sobre as ciências sociais, as artes, a política e certo ethos nordestino progressivamente construído no século XX. Inúmeros pesquisadores e artistas deram suas respectivas visões e interpretações sobre o episódio, numa lista que vai de Euclides da Cunha até Mario Vargas Llosa, passando, no cinema, por Glauber Rocha e Sergio Rezende.
     A guerra, deflagrada por um levante religioso no interior do sertão baiano, liderado pelo pregador popular conhecido como Antônio Conselheiro, marcou a eclosão de profundas tensões sociais na região. Flagelados pela alta concentração fundiária, tenebrosas secas e um sub-reptício discurso místico, proveniente da longínqua tradição sebastianista portuguesa (a crença do século XVII do retorno do rei D. Sebastião), os sertões baianos mostraram-se terreno propício para a mensagem de salvação apocalíptica anunciada por Conselheiro.
     Furioso com a República recém-declarada, que rapidamente anunciava o alvorecer de um Estado laico, o pregador guiou seus seguidores para o Arraial de Canudos, próximo da cidade de Monte Santo, no início da década de 1890. Por ele rebatizado de Belo Monte, Canudos constituiu-se numa pequena cidade independente, onde fiéis de Conselheiro aguardavam pacientemente o advento de um reino místico de justiça e retidão moral. Após um contínuo processo de militarização, o Arraial acabou por despertar apreensões locais e nacionais, que redundariam em quatro expedições militares para conter a revolta, executadas entre fins de 1896 e 1897. 25 mil baixas humanas depois, a Guerra de Canudos deixou uma marca indelével na República recém-nascida. Por meio dela atestaram-se as contradições socioculturais de um país que passava pelo processo de modernização capitalista e, ao mesmo tempo, travava batalhas campais contra sertanejos armados, lutando pelo que acreditavam ser o Reino de Cristo na Terra.

 Canudos no Cinema
     Inúmeras versões da Guerra de Canudos foram levadas às telas do cinema brasileiro, sendo a mais célebre Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), do cineasta Glauber Rocha (1939-1981), em que uma versão fictícia de Antônio Conselheiro é apresentada através do personagem Sebastião, pregador considerado santo no sertão nordestino. Porém, talvez seja a Guerra de Canudos (1997), lançado no centenário do conflito, película de Sergio Rezende, um dos marcos da retomada do cinema brasileiro, aquela que mais próxima chegou de retratar, fidedignamente, a cronologia e o cenário do evento.
     Logo em suas primeiras tomadas, somos apresentados à imagem desoladora da caatinga, com seu chão rachado e arenoso. A fotografia, conduzida por Antônio Luís Mendes, baseia-se na estética do deserto, remetendo aos filmes do Cinema Novo, movimento artístico do final da década de 1950 que buscou retratar a realidade social brasileira. Imagens de palhoças feitas de barro, em meio a um ambiente desolado, remetem o espectador a filmes como Vidas Secas e O Pagador de Promessas. O roteiro, escrito pelo próprio diretor e por Paulo Halm, acompanha a trajetória de uma família de sertanejos, separada pela dura existência na caatinga e reunida sob a égide do conflito armado. Em conformidade com o modelo de filmes históricos produzidos na segunda metade da década de 1990, num processo iniciado com Carlota Joaquina - Princesa do Brasil, expõe-se uma visão crítica da história brasileira, mostrada em certa medida como trágica e acidental.
     Mas realizado sob uma perspectiva descolada daquela do Cinema Novo, Guerra de Canudos está longe de idealizar os rebeldes de Belo Monte ou a repressão desencadeada pelo Exército brasileiro. Acompanhamos a trajetória de Luiza, filha mais velha de Zé Lucena e Penha, dois camponeses nordestinos do final do século XIX. Renegada pelos pais após se recusar a segui-los na peregrinação para Canudos, Luiza, interpretada pela atriz Claudia Abreu, torna-se uma prostituta e posteriormente esposa de um dos soldados chamados para combater os insurgentes.
     Longe de uma condenação de suas escolhas, o filme se vale do que seria sua ótica particular para conseguir um contraponto entre os “conselheiristas” e os oficiais republicanos. Com os olhos da jovem, testemunhamos um exército elitista, pouco preocupado em respeitar a população pobre do Nordeste, e crente em sua própria missão civilizadora, mesmo que esta tenha de ser levada à cabo com a ajuda de canhões Withworth calibre 32, apelidados de “matadeiras”. Estes figuram em uma sequência na qual o general Artur Costa, interpretado por José de Abreu, decide perfilar-se diante da arma, acompanhado por seus subordinados imediatos, e gritar em tom ufanista “Viva a República!”, iniciando em seguida o disparo indiscriminado contra o centro de Canudos. Do outro lado do campo de batalha, entretanto, não são isentos e paradoxais revolucionários que vemos, atirando continuamente contra as tropas inimigas, mas homens dotados de uma visão extremamente conservadora, imbuídos de uma crença fanática em sua própria retidão moral. Tamanho é o zelo fundamentalista dos mesmos que, em determinada cena, a camponesa Penha não hesita em atirar nas costas de um amigo de sua família, após esse optar pela deserção de Canudos.
     Com um incrível valor de produção, tendo reconstruído o Arraial para executar as cenas de batalha, Guerra de Canudos, tal qual todo filme histórico, é uma visão de sua época e dos artistas por ele responsável. Não há a adesão ou redefinição da causa em jogo, com tentativas de encarar Canudos como uma pré-sociedade comunista, mas uma interpretação igualmente crítica.
     Ao cabo da trama, a pena maior pelo massacre pesa indistintamente sobre o governo brasileiro, deixando claro que isso, por sua vez, não isentaria de responsabilidade o conservadorismo e o fundamentalismo religioso, emanados pelos revoltosos. Quanto à sequência final, acompanhamos Luiza e sua irmã mais nova, caminhando pelos escombros da cidadela e apanhando os rifles abandonados pelos combatentes.
     Num lance que pode talvez remeter ao final de Terra em Transe, outra obra de Glauber Rocha, o filme encerra com uma sugestão de guerra contínua, deixando antever a possibilidade de que as mortes e destruição provocadas no Arraial teriam iniciado um longo e traumático ciclo de violência, tendente a se repetir pelo século seguinte. Nada talvez ecoe com tanta precisão as previsões de Euclides da Cunha, que já na nota preliminar de Os Sertões afirma ter Canudos a “significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa”.
Guerra de Canudos
Direção: Sérgio Rezende
Ano: 1997
Áudio: Português
Duração: 165 minutos

Saiba mais - Filmes:
Deus e o Diabo na Terra do Sol
No sertão nordestino, o vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) mata seu patrão e foge com sua mulher, Rosa (Yoná Magalhães). Os dois tornam-se seguidores do líder messiânico "Santo" Sebastião (Lidio Silva), até que o jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Valle), a mando dos coronéis e da Igreja, mata o velho beato e seus fiéis. Manuel e Rosa sobrevivem e encontram o cangaceiro Corisco, vivido por Othon Bastos, que converte Manuel ao cangaço, rebatizando-o como "Satanás". Corisco é caçado e morto por Antônio das Mortes. Quando Glauber Rocha filmou: Deus e o Diabo na Terra do Sol, em 1964, tinha apenas 23 anos. Como laboratório para o filme, Glauber percorreu todo o sertão nordestino em busca de personagens e ideias, convivendo com a dura realidade da seca e da fome. O filme é considerado, por muitos críticos e teóricos, um divisor de águas na carreira do cineasta, além de representar um marco na história do cinema nacional. O filme consagrou internacionalmente o estilo revolucionário e inconfundível do diretor cinemanovista (movimento cinematográfico brasileiro da década de 60), precursor do estilo “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, além de influenciar muitos cineastas latino-americanos.
Direção: Glauber Rocha
Ano: 1964
Áudio: Português
Duração: 119 minutos

Terra em Transe
Na fictícia República de Eldorado, Paulo Martins (Jardel Filho) é um jornalista idealista e poeta ligado ao político conservador em ascensão e tecnocrata Porfírio Diaz (Paulo Autran) e sua amante meretriz Silvia (Danuza Leão), com quem também mantêm um caso formando um triângulo amoroso. Quando Porfírio se elege senador, Paulo se afasta e vai para a província de Alecrim, onde conhece a ativista Sara (Glauce Rocha). Juntos eles resolvem apoiar o vereador populista Felipe Vieira (José Lewgoy) para governador na tentativa de lançarem um novo líder político, supostamente progressista, que guie a mudança da situação de miséria e injustiça que assola o país. Ao ganhar a eleição, Vieira se mostra fraco e controlado pelas forças econômicas locais que o financiaram e não faz nada para mudar a situação social, o que leva Paulo, desiludido, a abandonar Sara e retornar à capital e voltar a se encontrar com Sílvia. Se aproxima de Júlio Fuentes (Paulo Gracindo), o maior empresário do país, e lhe conta que o presidente Fernandez tem o apoio econômico de uma poderosa multinacional que quer assumir o controle do capital nacional. Quando Diaz disputa a Presidência com o apoio de Fernandez, o empresário cede um canal de televisão para Paulo que o usa para atacar o candidato. Vieira e Paulo se unem novamente na campanha, até que Fuentes trai ambos e faz um acordo com Diaz. Paulo quer partir para a luta armada mas Vieira desiste.
Direção: Glauber Rocha
Ano: 1967
Áudio: Português
Duração: 109 minutos

O Pagador de Promessas
Zé do Burro (Leonardo Villar) é um homem humilde que enfrenta a intransigência da Igreja ao tentar cumprir a promessa feita em um terreiro de candomblé de carregar uma pesada cruz por um longo percurso. Zé do Burro é o dono de um pequeno pedaço de terra no Nordeste do Brasil. Seu melhor amigo é um burro. Quando este adoece, Zé faz uma promessa à uma mãe de santo do candomblé: se seu burro se recuperar, promete dividir sua terra igualmente entre os mais pobres e carregará uma cruz desde sua terra até a Igreja de Santa Bárbara em Salvador, onde a oferecerá ao padre local. Assim que seu burro se recupera, Zé dá início à sua jornada.
O filme se inicia com Zé, seguido fielmente pela esposa Rosa (Glória Menezes), chegando à catedral de madrugada. O padre Olavo (Dionísio Azevedo) recusa a cruz de Zé após ouvir dele a razão pela qual a carregou e as circunstâncias "pagãs" em que a promessa foi feita. Todos em Salvador tentam se aproveitar do inocente e ingênuo Zé. Os praticantes de candomblé querem usá-lo como líder contra a discriminação que sofrem da Igreja Católica, os jornais sensacionalistas transformam sua promessa de dar a terra aos pobres em grito pela reforma agrária. A polícia é chamada para prevenir a entrada de Zé na Igreja, e ele acaba assassinado em um confronto violento entre policiais e manifestantes a seu favor. Na última cena do filme, os manifestantes colocam o corpo morto de Zé em cima da cruz e entram à força na catedral.
Direção: Anselmo Duarte
Ano: 1962
Áudio: Português
Duração: 118minutos

Vidas Secas
Vidas secas, filme baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos.
Família de retirantes, Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia, que, pressionados pela seca, atravessam o sertão em busca de meios de sobrevivência. Uma paisagem seca. Terra esturricada, vegetação rasteira, uma árvore desfolhada à direita, céu branco, explosão de sol. Um rangido fino e insistente parece, lentamente, se aproximar. De repente, um cachorro aparece na linha do horizonte. Longe, bem longe. Depois do animal, quatro pessoas caminhando em direção à câmera. O ruído irritante se avoluma, e só então é possível distinguir a sua origem – as rodas enferrujadas do velho carro-de-boi que a família de retirantes, liderada pelo vaqueiro Fabiano, usa para transportar a mudança. O lento e silencioso plano-sequência que abre “Vidas Secas” funciona como um manifesto de intenções. Este é um filme duro, seco e quente sobre o drama da pobreza Foi o único filme brasileiro a ser indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca. Neste filme fica perceptível a influência marcante do neo-realismo italiano na obra do diretorno sertão nordestino.
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Ano: 1963
Áudio: Português
Duração: 103 minutos

Carlota Joaquina
O filme conta, satiricamente, parte da história da monarquia portuguesa, e a elevação do Brasil, de colônia do império ultramarino português, a reino unido com Portugal. Também faz referências a monarquia espanhola. A morte do rei de Portugal D. José I de Bragança, em 1777, e a declaração de insanidade da filha herdeira do precedente, a rainha D. Maria I, em 1792, levam seu filho, o então príncipe D. João de Bragança e sua esposa, a infanta espanhola Carlota Joaquina de Bourbon, ao trono real português. Em 1807, para escapar das tropas napoleônicas que invadiam Portugal, a corte portuguesa e o casal transferem-se às pressas para o Rio de Janeiro, onde a família real e grande parte da nobreza portuguesa vivem exiladas por 13 anos. Na colônia aumentam os desentendimentos entre Carlota Joaquina e D. João VI, que após a morte da mãe, D. Maria I, deixa de ser príncipe-regente e torna-se rei de Portugal e, posteriormente, rei do reino unido de Portugal, Brasil e Algarves
Direção: Carla Camurati
Ano: 1995
Áudio: Português
Duração: 100 minutos

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