“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

terça-feira, 8 de maio de 2012

Alma em chamas

Em "Incêndios", um casal de gêmeos, após a morte da mãe, parte em busca de uma família desconhecida no Oriente Médio, descobre o passado da família e os horrores da guerra - revelados não por cenas violentas, mas por diálogos intensos.
“Incêndios” (Incendies, 2010) é um filme cruel. Sobretudo, é uma película contra a guerra. Gosto desta definição, mas não pretendo limitar a sua beleza a uma simplória crítica contra a guerra. Até porque, não há nada simplório na película de Denis Villeneuve – pelo contrário. Tanto a complexidade quanto a brutalidade são suas características mais marcantes, que me permitiram sair do cinema sentindo na pele a expressão “soco no estômago”.
     Existe em “Incêndios” um intrincado jogo de identidades envolvendo embates religiosos entorpecidos pela política libanesa. Não somos poupados da crueldade da guerra, nem mesmo da ferocidade da religião que mata em nome de Deus ou de Alá. Os acontecimentos não são classificados, o que os torna, portanto, capazes de serem alocados em qualquer período das longas décadas de conflitos naquela região.
     O ponto de partida é o testamento de Narwal Marwan (Lubna Azabal), no qual seus filhos, os irmãos gêmeos Simon Marwan (Maxim Gaudette) e Jeanne Marwan (Mélissa Désormeaux-Poulin), se deparam com o inquietante desejo da mãe: “Enterrem-me sem caixão, nua e sem orações, com a face voltada para a terra. Nada de epitáfio para aqueles que não cumprem suas promessas”. Além do inusitado pedido, os jovens são surpreendidos com a notícia de que eles têm um irmão e um pai vivos e de que eles devem voltar ao Oriente Médio para encontra-los. A mãe deixa ainda uma carta aos entes desconhecidos, e pede que os filhos a entreguem em mãos.
     Diante da descoberta, os gêmeos enfrentam uma crise por perceberem que não conheciam a mulher que acabaram de enterrar – seus segredos, suas dores e suas amarguras passadas. Simon resiste à ideia de voltar à Palestina, enquanto Jeanne considera relevante descobrir o paradeiro da família e cumprir o último desejo de sua mãe. A menina decide, então, embarcar sozinha ao Oriente Médio, numa viagem cortada por múltiplos flashes, que conduzem o espectador a diversos períodos da História – ali, os fragmentos temporais são peças de um quebra-cabeça, montado ao longo da narrativa.

Viagem pelos horrores da guerra
Simon, por fim, se junta à odisseia e os dois, aos poucos, começam a descobrir quem de fato foi sua mãe: ao passo que as múltiplas identidades dela começam a vir à tona, os gêmeos se deparam com a fluidez de suas próprias personalidades. Enquanto compreendem os horrores da guerra pelos quais a mãe passou, entram em contato com um amor profundo e complexo que ela sempre nutriu por ambos. Sentimento que, por tantas vezes, ficou soterrado pelas dores de outrora e pelo comportamento inexplicável de uma mulher cuja vida eles só conheceram após sua morte.
     O horror vivido por Narwal, sua luta política e seus anos na prisão, é revertido depois num amor verdadeiro e profundo por seus filhos. O amor que a guiou, desde o momento do nascimento de ambos, só fica visível quando o passado é revelado. Porém, todos os acontecimentos pretéritos estão mesclados com o presente, sobretudo quando ficam diante de seu pai e de seu irmão. Nós descobrimos juntamente com Simon e Jeanne toda a dor de sua mãe, e também choramos com eles a cada pequena nova surpresa. O choro, todavia, não é copioso como em um melodrama; são lágrimas silenciosas, que seguem conosco para além das paredes do cinema.
     O filme termina nas telas e continua em nós. Os diálogos são fortes e eu diria que em alguns momentos, chegam a ser violentos. A beleza da obra está também na sábia escolha dos meios pelos quais a violência é mostrada: o longa fala da guerra sem apelar para cenas de violência excessiva ou explícita, enquanto o roteiro faz o trabalho de nos colocar em contato com a complexidade do ser humano, incluindo toda sua brutalidade inerente. Ao final, estamos nós mesmos diante de Narwal, cúmplices da dolorosa experiência que ecoa muito além do escuro do cinema.



“Incêndios” (Incendies)

Direção: Denis Villeneuve
Ano: 2010
Áudio: Francês/legendado
Duração: 130 minutos
Tamanho: 797 MB


  

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