“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

domingo, 13 de maio de 2012

Matar e não comer

No domingo passado (06/05), um policial militar foi fotografado usando spray de pimenta contra uma cadela na Rocinha – Zona Sul do Rio de Janeiro. O PM justificou o ato dizendo que o animal estava a ponto de mordê-lo, mas a explicação não convenceu milhares de internautas que se mobilizaram em defesa da cachorrinha Pantera.  O fato abre portas para se discutir uma questão mais ampla, cujas raízes remontam ao início da sociedade ocidental: a violência contra os animais.

     Touradas, rinhas de galo e de cães, rodeios, pesca esportiva, farra do boi... Os animais, domésticos ou não, têm servido ao divertimento dos homens. A crueldade contra os demais seres do mundo natural, entretanto, não é um novidade no ocidente.
     Ao longo dos séculos, nossa postura em relação aos animais se transformou. Esta mudança revelou não apenas uma adequação a determinados padrões burgueses de comportamento, que em geral rejeitam a violência explícita ou muito próxima aos olhos, mas também um deslocamento do próprio homem na representação da natureza.
     É possível perceber, desde a Antiguidade Clássica, uma reflexão de cunho moral sobre as implicações da distância. O filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.), na sua obra Retórica, ao tratar do gênero retórico aplicado à prática jurídica, afirmou que o homem só é sensível à dor daquele que lhe é próximo. Segundo o historiador italiano Carlo Ginzburg, esta noção foi retomada por diferentes pensadores na Época Moderna, em especial durante o século XVIII, caso evidente na obra do filósofo iluminista Denis Diderot (1713-1784).  O que faz uma pessoa respeitar a lei e não cometer um crime não é um constrangimento genuíno, mas o medo da condenação: “o remorso talvez nasça menos do horror de si do que do medo dos outros; menos da vergonha da ação do que da censura e do castigo que se seguiriam se ela fosse descoberta”, escreveu em 1773.
     Este princípio geral poderia ser aplicado a todas as épocas: alguém, estando em Lisboa ou em Paris, ao saber que um terremoto matou milhares de pessoas na longínqua China, pode se lamentar por um tempo, refletir sobre a fragilidade e a transitoriedade da vida, talvez demonstrar até mesmo alguma compaixão genuína. Mas dificilmente perderá o apetite ou deixará de cumprir algum ritual cotidiano. A distância dos cadáveres não permite que o seu odor seja sentido.

Matar pelo prazer de matar

     A crueldade com os animais teria alguma relação com a noção de distância. Os animais selvagens, que não convivem com os homens, são fisicamente distantes e, por isso, estão fora da nossa redoma de compaixão. Ao longo dos séculos, mesmo não sendo mais necessário para fins de subsistência em muitos dos círculos “civilizados”, a caça permaneceu como diversão, como “prática esportiva”. A rainha Elizabeth I gostava de caçar cervos no século XVI. Quando já estava com idade avançada, atirava em animais presos em um cercado. Matar pelo simples prazer de poder matar.
     Já os animais fisicamente próximos ao homem, ou seja, que compartilhavam um espaço geográfico semelhante – domesticados, portanto –, podiam ser maltratados pelo fato de que estavam situados em um lugar distante do homem no que diz respeito à ordem natural do mundo. Na Criação, de acordo com a tradição legada ao ocidente moderno pelo cristianismo, o homem ocupa um lugar proeminente em relação aos demais seres – inclusive à mulher. Deste modo, estando os homens distantes dos outros animais, as implicações morais do que consideramos crueldade são absolutamente efêmeras.    

     Era muito comum, pelo menos até o século XVII, divertimentos envolvendo animais que, atualmente, podem fazer qualquer brutamontes corar. O açulamento de touros, ursos e outros animais na Inglaterra era uma prática corriqueira, um evento organizado por anfitriões educados ao receberem visitantes. Acorrentava-se a vítima e incitava-se cães contra ela, às vezes um a um, às vezes em conjunto. O animal, que rapidamente tinha o seu focinho, suas orelhas ou outras partes mais frágeis da sua anatomia dilaceradas, era maltratado durante horas, até o seu aniquilamento. Em algumas regiões, realizava-se uma corrida de touros. O animal, com as orelhas e a cauda arrancadas e o nariz fervendo de pimenta, era solto no meio da multidão, que tratava de piorar o seu sofrimento. Em algumas escolas, durante o carnaval, era prática comum apedrejar galos. A ave podia ser amarrada a um toco ou enterrada até o pescoço. A partir daí, as crianças a apedrejavam até a morte.
     Ao longo do século XVIII, com o avanço do conhecimento do mundo por meio científico, o homem ocidental pareceu cada vez mais próximo dos demais seres da natureza. Paralelamente, a crueldade em relação aos animais passou a ser algo cada vez mais incômodo – a proximidade traz o constrangimento. Ainda em 1713, o poeta inglês Alexander Pope escrevia: “quanto mais inteiramente a criação inferior é submetida ao nosso poder, mais responsáveis nós devemos ser em relação ao seu mau uso”.
     Os ingleses, assim como europeus de outros centros iluministas, passaram a ver com muita estranheza algumas práticas que permaneciam em regiões periféricas, como Portugal e Espanha. As touradas, os sangrentos festivais onde os animais são sistematicamente massacrados para delírio de uma multidão, eram vistos como resquício de práticas bárbaras – sobretudo em um momento no qual os seres vivos parecem estar muito próximos dentro da natureza.

Proteção legal

     A crueldade contra os animais passou a ser paulatinamente combatida no âmbito das legislações nacionais ao longo do século XIX. Simultaneamente, grupos de pessoas se dedicavam à proteção dos animais, formando associações ou produzindo textos que embasavam esta mudança de postura. Em 1838, o norte-americano William Hamilton Drummond publicava Os direitos dos animais, e a obrigação do homem em tratá-los com humanidade. Nesta obra, afirma que muitos homens verdadeiramente benevolentes daquele século não haviam se dado conta de que estas atitudes de condescendência deveriam ser estendidas aos outros animais. Segundo Drummond, “eles nunca foram levados a refletir sobre o fato de que muitos animais são delicadamente constituídos e sensíveis à dor como eles próprios – e que todos estes animais, assim como o homem, têm os seus direitos, aos quais é injusto e cruel violar ou infringir”.
     O século XX demonstrou repetidas vezes que o homem civilizado não está livre da crueldade. Duas guerras mundiais, o extermínio sistemático de minorias étnicas, conflitos fratricidas por motivos que variam de domínio territorial a divergências religiosas têm colocado em xeque a noção de que o homem ocupa um lugar especial no reino animal. Aliás, sua superioridade parece residir na capacidade potencial de eliminar este e outros reinos.
     Entretanto, algumas iniciativas ao longo do século passado dão prova de que o legado iluminista não se perdeu completamente. Somos, querendo ou não, herdeiros desta tradição que trata o homem como um ser natural, e por isso somos forçados a nos colocar lado a lado com os outros animais, sendo capazes, por isso, de perceber que sofrem, que podem sentir dor – ou seja, a distância foi reduzida.
     Muitas entidades da sociedade civil, como a Sociedade União InternacionalProtetora dos Animais (Suipa), fundada em 1943, ou a People for the Ethical Treatment of Animals (Peta), organizada em 1980, trazem à tona cotidianamente a nossa relação de vizinhança com as outras espécies animais. E provam que, mesmo em tempos pouco delicados, a compaixão pelo próximo, bípede ou não, nos faz, de algum modo, humanos.

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