“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A morte de JK. Fatos que levantam suspeitas.

Falhas na perícia e no inquérito se somam ao clima político da época e reforçam tese de quem acredita que Juscelino tenha sido vítima de uma emboscada armada pelos militares no poder
Estado de Minas

        “Precisaram matar, espezinhar, liquidar Juscelino, porque não conseguiram liquidar sua força, sua dignidade, sua coragem, seu carisma de grande líder”, disse dona Sarah Kubitschek (1909–1996) em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, em agosto de 1986, 10 anos depois da morte do marido. Dona Sarah morreu com essa certeza, mas sem conseguir provar. Quem persiste com o objetivo é o presidente da Casa Juscelino Kubitschek, em Diamantina, Serafim Melo Jardim, que teve depoimento tomado pela Comissão de Direitos Humanos da Seção Mineira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), na semana passada.
     Para entender os motivos das dúvidas é essencial compreender o contexto histórico. À época do acidente a ditadura ensaiava dois caminhos, uma abertura – lenta,  gradual e segura –, como aconteceu com a declaração da anistia, em 1979, ou uma possibilidade de endurecimento. Estava em pleno vigor a Operação Condor, um ação conjunta dos governos militares do chamado Cone Sul para minar a oposição aos regimes militares.
     Um dos documentos que despertam suspeitas é uma carta do coronel chileno Manuel Contreras enviada ao general de divisão João Baptista Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), em 1975. A carta discorria sobre a possibilidade de vitória do democrata Jimmy Carter nos Estados Unidos, o que influenciaria a “estabilidade no Cone Sul”. O general chileno citava que JK e o ex-ministro do Exterior do governo do chileno Salvador Allende, Orlando Letelier, poderiam receber apoio. No ano seguinte, os dois morreram. A morte de Letelier foi atribuída à Dina, o serviço secreto liderado por Contreras, que explodiu o carro do ex-ministro em Washington, capital dos EUA. JK morreu um mês antes, quando buscava restabelecer a democracia no Brasil.
     Quatro meses depois, em dezembro, morreu o também ex-presidente João Goulart, de ataque cardíaco. Mais cinco meses se passaram e o ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda também morreu, de infarto e desidratação aguda por febre. Os três formavam a Frente Ampla, grupo de oposição ao regime militar. Criada em 1967, a frente durou oficialmente até o ano seguinte, quando Lacerda foi cassado. JK foi cassado antes, em 1964, quando exercia o cargo de senador por Goiás. Goulart foi o último presidente antes de os militares tomarem o poder e também cassado em abril de 1964. Há quatro anos, a família de Goulart entrou com ação na Procuradoria Geral da República pedindo a investigação sobre um possível complô para matar o ex-presidente por envenenamento.
     Em 2001, a Câmara dos Deputados criou uma comissão externa para tentar esclarecer a morte de JK. A conclusão foi: “Não há qualquer laudo, qualquer estudo técnico que possa comprovar a tese de assassinato. O argumento é, na verdade, emocional”. Entretanto, o relatório destaca também: “Juscelino incomodava e ameaçava o poder dos ditadores. É verdade, sim, que o povo ansiava pela volta de Juscelino ao cenário político. Do mesmo modo, os fatos indicam que havia um complô para que Juscelino retornasse ao poder. Aquele acidente antecipou o desejo de muitos”.

Um choque que ninguém viu
     Diversas falhas são apontadas na perícia e no inquérito. Apenas nove dos 33 passageiros do ônibus da Cometa foram ouvidos pela Justiça e nenhum afirmou que houve choque do ônibus com o Opala. “A verdade é uma só: ninguém teve conhecimento do abalroamento do Opala pelo ônibus, nem mesmo o guarda rodoviário que compareceu ao local e que foi notificado da ocorrência pelo motorista do coletivo. Ninguém percebeu a ocorrência do fato questionado. Ninguém o comentou. E tal coisa seria impossível se tivesse ocorrido aquele choque”, escreveu o juiz de Resende (RJ), Gilson Vitral Vitorino, em 18 de agosto de 1977. Além disso, o motorista da Cometa, Josias Nunes de Oliveira, parou no local para prestar socorro e alguns quilômetros à frente voltou a parar, dessa vez em um posto da Polícia Rodoviária, para informar do acidente.
     Outro ponto apontado na sentença é que não houve preservação do local. A pista não foi interditada e os peritos chegaram horas depois do acidente. A sentença também ressalta que “por ordens superiores” não foram anexadas ao laudo fotografias com o posicionamento dos cadáveres. O auto de exame cadavérico deveria responder quatro questões: se houve morte, qual a causa da morte, qual o instrumento ou meio que produziu a morte e, por último, se ela foi produzida por meio de veneno, fogo, explosivo, asfixia ou tortura ou por outro meio insidioso ou cruel. Somente a última não foi respondida.
     Foram designados dois peritos criminais: Haroldo Ferraz e Nelson Ribeiro de Moura. No dia seguinte ao acidente, Haroldo foi substituído pelo perito Sérgio de Souza Leite. Em 1995, 19 anos depois, Sérgio foi demitido do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, depois de nove denúncias do Ministério Público contra os laudos produzidos por ele, sendo que oito processos tiveram que ser arquivados por falta de provas.

Tinta, outro carro e um suposto tiro
     Uma das principais provas que levaram à acusação de Josias foi um vestígio de tinta encontrado na lataria do ônibus da Cometa. O presidente da casa JK, em Diamantina, e que à época do acidente era secretário particular de Juscelino, destaca que o laudo da análise das tintas foi feito por uma empresa privada, a Termomecânica São Paulo S.A, e não pelos peritos da Secretaria de Segurança Pública, como era usual. Josias, o motorista da Cometa, também explicou que a tinta encontrada pela perícia era recorrente em todos os ônibus que circulavam no terminal rodoviário de São Paulo, devido a esbarrões em peças semelhantes a manilhas, presentes na entrada da rodoviária.
     Serafim não se conforma com o fato de o juiz não ter ouvido todos os passageiros. À época surgiram versões de que um outro veículo, um Chevrolet Caravan, teria fechado o Opala e provocado o acidente. Chegou a ser levantada a suspeita de que do veículo teria saído um tiro e teria acertado o motorista de JK, Geraldo Ribeiro. Quando Serafim foi chefe de gabinete do então governador Eduardo Azeredo (PSDB), em 1996, conseguiu a reabertura do processo, poucos meses antes de vencer o prazo legal – de 20 anos – de prescrição.
     O corpo de Geraldo, enterrado no Cemitério da Saudade, em Belo Horizonte, foi exumado. O laudo número 12.311/96 aponta a presença de um “pequeno fragmento metálico de forma cilindro-cônica, medindo sete milímetros de comprimento e diâmetro médio de dois milímetros” no crânio do motorista. O objeto foi analisado e o laudo da Secretaria de Segurança Pública de Minas Gerais concluiu que o metal era o “fragmento de prego enferrujado e corroído”, que se desprendeu do caixão. Serafim, entretanto, não descarta a possibilidade de ser um fragmento de uma bala. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Seção Mineira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), Willian Santos, afirma ter informações de que o metal pode ser de um projétil de arma de uso exclusivo do Exército.



Os anos JK - uma trajetória política
O filme conta a trajetória do presidente brasileiro Juscelino Kubitschek. 1954: suicídio de Getúlio Vargas. 1955: crise política ameaça a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek. 1956: JK assume a presidência. Promete democracia e desenvolvimento. Supera crises e crises. Começa a construção de Brasília. Brasil muda de tom. 1960: JK inaugura Brasília. 1961: JK dá posse a seu sucesso Jânio Quadros. Sete meses depois Jânio renuncia. Crise. 1964: Golpe Militar instaura ditadura. JK é cassado. Dez anos de história. Muitas crises. O governo JK é um exercício de democracia. O Brasil ferve. Os anos JK. Ver para não esquecer. O filme é narrado pelo ator Othon Bastos e contou com a participação de alguns políticos, entre eles Tancredo Neves, Renato Archer, Magalhães Pinto e Henrique Teixeira Lott.
Documentário vencedor dos prêmios: Festival de Gramado 1980, Prêmio Especial do Júri e Melhor Montagem. Troféu APCA 1981 Melhor Montagem. Troféu Margarida de Prata - CNBB (1980). São Saruê – FCCRJ (1981). Prêmio de Qualidade - Concine (1980)
Direção: Silvio Tendler
Ano: 1980
Áudio: Português
Duração: 110 minutos
Tamanho: 688 MB
Bela Noite Para Voar
O filme mistura episódios reais com fatos fictícios. Durante seu mandato na presidência da república, entre os anos de 1955 e 1960, Juscelino Kubitscheck (José de Abreu) criou seu Plano de Metas, que pretendia desenvolver o Brasil cinquenta anos em cinco. Para isso, no entanto, ele teve que bater de frente com muitos poderosos, inclusive o deputado Carlos Lacerda (Marcos Palmeira), considerado responsável pelo suicídio de Getúlio Vargas. Além disso, Kubitscheck também rompeu com o Fundo Monetário Internacional, o FMI.
Por sua ousadia, muitos militares tentam armar planos para derrubar o governante e instaurar um novo regime de poder. Alguns dias após uma manifestação destes militares, o ministro da guerra, General Lott, tenta alertar o presidente de que ele pode estar correndo riscos, mas não obtém sucesso.
Assim, em uma Bela Noite Para Voar, JK precisa cumprir uma série de compromissos em diversas regiões do Brasil, para isso sai com um de seus aviões oficiais voando entre Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Brasília e Minas Gerais. “Durante a trajetória, uma conspiração capitaneada por oficiais da Aeronáutica tenta derrubar o avião do presidente”, conta o diretor.
O filme faz referência às rebeliões do início do mandato de Juscelino, especialmente a de Jacareacanga, ocorrida em fevereiro de 1956, quando oficiais da Aeronáutica tomaram uma base aérea do sul do Pará. O grande desejo do estadista é chegar logo ao destino final, Belo Horizonte, onde sua amante Princesa (Mariana Ximenes) o aguarda. Porém, um grupo de rebeldes da aeronáutica fez o possível para que o avião não consiga pousar inteiro.
Direção: Zelito Viana
Ano: 2009
Áudio: Português
Duração: 87 minutos
Tamanho: 324 MB
Jango – Como, quando e porque se depõe um Presidente
O documentário de Sílvio Tendler acompanha a vida política de João Belchior Marques Goulart (1918-1976), o Jango, de 1950 a 1976, de seu primeiro cargo importante, como Ministro do Trabalho no governo de Getúlio Vargas, até o exílio no Uruguai e Argentina, depois do golpe de 1964. Tendler explora a vida de Jango, gaúcho de São Borja e único presidente brasileiro a morrer no exílio, apresentando imagens de filmes caseiros, documentários antigos, fotos e entrevistas, e, depoimentos importantes, como os do general Antônio Carlos Muricy, de Leonel Brizola, de Aldo Arantes, de Afonso Arinos, de Magalhães Pinto, de Frei Betto, de Celso Furtado, entre outros.
Há uma grande quantidade de imagens inéditas, como as viagens de Goulart à Russia e à China, Jango discursando na ONU,  e do comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, que, antecede ao golpe militar de 31 de março.
Documentário vencedor dos prêmios: Música Original (Milton Nascimento e Wagner Tiso), Melhor Filme (Júri Popular) e Prêmio Especial do Júri, XII Festival do Cinema Brasileiro de Gramado, RS, 1984. Prêmio Especial do Júri para Documentário, Festival Novo Cinema Latino-Americano, Havana, Cuba, 1984. Melhor Filme do Público, Festival de Nova Delhi, Índia, 1985.
Direção: Sílvio Tendler
Ano: 1984
Áudio: Português
Duração: 117 minutos
Tamanho: 459 MB

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